Resenha

Wise After The Event

Álbum de Anthony Phillips

1978

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

20/06/2020



Uma obra cheia de rigidez melódica, além de passagens pastorais caprichosas

Uma obra cheia de rigidez melódica, além de passagens pastorais caprichosas. 

Em 1978, Anthony Phillips estava com os seus “bolsos” cheios de ideias, sejam elas recentes ou antigas ainda do seu tempo de Genesis e pretendia lançar um disco em um formato bastante incomum, LP + EP. Phillips tinha se dado duas missões para as gravações deste disco e que constituíam em: a) ele mesmo cantar em todas as músicas – isso depois de ser incentivado pelo produtor Rupert Hine e b) transformar a suas ambições e paixão pelo clássico em algo mais voltado para o rock e uma sonoridade mais acessível. 

Já vi muitas pessoas reclamar da voz de Phillips, falam que ele não sabe cantar entre outros predicados bem pesado. Sou completamente contrario a esse pensamento, mas penso que em meados de 1970, ele ainda não sabia como usar a sua voz da melhor maneira. Em Wise After The Event ele tenta ser bastante versátil, cantando pop, baladas românticas, faixas surrealistas psicodélicas e até histórias operásticas, mas tentar não é conseguir, e talvez nisso ele de fato tenha pecado, e concordo que neste álbum em específico as coisas em relação aos vocais não tenha se desenvolvido como deveria. O material psicodélico e o pop art é do tipo que Phillips costuma pregar - de uma forma bem especial. Mas o problema entra no fato de baladas folclóricas e poéticas comporem a maior parte do disco, com Phillips cantando todos os vocais – que inclui os de apoio. É muito compreensível que a ideia era dar ao álbum mais da própria personalidade de Phillips, e de certa forma isso inclusive funciona muito bem, no entanto, o álbum peca um pouco nas confusões vocais de Phillips, onde entre uma delas é a de canto emocional com canto patético – não consegui pensar em outra palavra. 

“We're All As We Lie” é uma música que não é algo muito longe do que o Genesis iria fazer em ...And Then There Were Three..., mas antes que isso possa parecer um problema aos ouvintes mais ávidos de rock progressivo, podem ficar tranquilos, pois Phillips faz isso, mas não chega a abandonar suas progressões de acordes inspiradas em Bach e estranhas reviravoltas no ritmo de arranjo. “Birdsong” começa acústica através de um arranjo bastante bonito e interessante, pois o baixo, o teclado e a bateria se alternam muito bem com as partes acústicas. Acho uma faixa adequadamente sinfônica e do tipo que a voz de Phil Collins teria feito a música soar melhor ainda. 

“Moonshooter” mostra que as correlações musicais com o Genesis encontradas no disco estão mais nas baladas. Sem a menor dúvida ela é um dos melhores momentos do disco. Eu costumo valorizar bastante o refrão de uma música e aqui ele é maravilhoso. Há contrapontos delicados de guitarra e guitarras de 12 cordas que ele já utilizava em Trespass. Novamente eu adoro imaginar o Phil Collins cantando a música, porém, aqui, acho que nenhuma se encaixaria melhora que a de Anthony. 

“Wise After The Event” é a faixa título e a maior do disco, com quase nove minutos. Uma faixa totalmente bem sucedida e tem um contraste bem grande em relação a anterior. A música possui imensas paredes de guitarras de 12 cordas reverberadas e os vocais são meio surrealistas. Uma parte central instrumental é construída maravilhosamente bem. Alguns momentos desta faixa é facilmente uma das declarações musicais mais assombrosas e ameaçadoras de toda a carreira de Phillips. 

“Pulling Faces” é uma música que ao mesmo tempo em que é ótima, também sofre com a produção. Seu início através de uma marcha em alta é excelente, algo que ainda se repete de tempos em tempos. Novamente possui um tipo de humor encontrado em músicas do Genesis. Phillips aqui apresenta uma boa forma vocal. Não consigo exatamente apontar o que na produção não me agrada, mas acho que talvez seja as fortes camadas de sintetizadores e guitarras que cobrem demais o restante do som. De qualquer forma, ainda consegue ser uma ótima música. 

“Regrets” tem algo que não costumamos ver com muita frequência, um excelente guitarrista que também se desenrola bem no piano – e demais orquestrações da música. É uma faixa bastante melancólica e de influência clássica. Difícil deixar passar despercebida a coragem de Anthony em misturar os seus vocais em primeiro plano, cantando uma música que ele escreveu e musicou, ficando sujeito a qualquer crítica, seja ela positiva ou negativa, inclusive, algo de uma honestidade que eu admiro bastante. Falando em crítica, infelizmente a faixa não passa despercebida, pois os arranjos de cordas às vezes se colocam com uma intensidade que pra mim é meio exagerada, mesmo que não comprometa a faixa de forma grave. 

“Greenhouse” é uma música mais curta e que antecipa uma linha meio glam que Phillips viria a seguir em alguns discos futuros. Devo admitir que para os meus ouvidos as coisas não soam muito bem aqui, mas também não posso dizer que incomodam ou são inaudíveis. 

“Paperchase” é uma música muito atmosférica, o órgão é tipicamente da segunda metade dos anos setenta. O que acontece de melhor na música são os trabalhos de guitarra como, arpejos acústicos, dedilhado de violão, guitarra chorando ao fundo suavemente no começo e no meio da faixa. 

“Now What (Are They Doing To My Little Friends)?” é a faixa que encerra o disco, sendo a segunda maior em direção com oito minutos e meio. Infelizmente o álbum encerra de maneira boba. Escrever quatro estrofes das perspectivas de quatro animas prestes a morrer por caçadores? Acho algo muito forte para ser abordado em letras tão ingênuas. Musicalmente também não soa com a emoção necessária, mas o pior de tudo são os vocais de Phillips que tenta colocar emoção e descrever resignação – nas estrofes – e muita raiva – nos coros – sobre as ações do caçador, mas acaba soando chorão e triste. Enfim, a música tem uma muito boa intenção, mas mesmo assim a vontade de ouvi-la é praticamente nula. 

Mesmo não sendo necessariamente um disco do mesmo nível da sua estreia, Wise After The Event não deixa de ser uma joia muitas vezes até mesmo um tanto subestimada, cheia de rigidez melódica, além de passagens pastorais caprichosas.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Wise After The Event

Álbum disponível na discografia de: Anthony Phillips

Ano: 1978

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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