Resenha

Tchokola

Álbum de Jean-Luc Ponty

1991

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

12/06/2020



O encontro do jazz de Jean-Luc Ponty e a sonoridade afro beat

Há algo que não é nenhum segredo pra ninguém, quando falamos de músicos de rock e jazz, sempre vamos lembrar de alguns nomes que foram cativados pela mágica e força da música africana, como por exemplo, Peter Gabriel e o baterista Ginger Baker, porém, são muito poucos aqueles que foram tão longo como foi o caso de Jean-Luc Ponty em Tchokola. É verdade também, que quando falamos de jazz, lembrar que suas raízes foram na música afro-americana é bastante comum, sendo assim, é o gênero ideal para ser misturado com cantos melódicos e padrões de ritmos complexos, mas às vezes o melhor mesmo é evitar correr grandes riscos em vez de perder a melodia em uma avalanche de percussão e ritmo. 

Se existe algo pelo que Ponty sempre foi conhecido, é pela sua capacidade em misturar influências diferentes, mas sem nunca deixar de manter simplesmente intacto sua sonoridade característica e estilo distinto. Porém, agora chegamos a um ponto importante do disco, aqui Ponty parece que se envolveu demais com todos aqueles ritmos fortes e cantos tribais que acabou deixando com que seu estilo pessoal ficasse desorientado, sendo absorvido pela força e magia da música africana. 

Todos os músicos que Ponty convidou para fazer parte do grupo e que tocaria no disco vieram da África Ocidental, sendo que a maioria deles toca mais é instrumentos exóticos, tais como, balafon, corá, tambo falante e etc, servindo como mais uma prova que o músico realmente se envolveu de corpo e alma neste projeto, tendo que consequentemente pagar certo preço por isso, afinal, Ponty em determinados pontos perde o controle e o disco deixa de ter qualquer caráter fusion e soa somente como um disco de músicas africanas. 

Outro ponto no mínimo curioso é que Ponty permite que Abdou Mboup, Willy Nfor e Myriam Betty em algum momento do disco assuma o controle na criação de arranjos, quando o músico é conhecido justamente por sempre se manter no controle absoluto dessa situação em todos os seus discos. Mas justiça seja feita, mesmo que o violino de Ponty esteja presente de forma intacta nas músicas álbum, quando estamos diante de faixas como “Mam'Mai” e “Sakka Sakka”, não tem como negar que estão diante de faixas afro funk e não de jazz fusion. 

A forma como esse disco se desenvolve dá ao ouvinte uma liberdade de não precisar falar de todas as suas faixas, pois todas elas de certa forma têm um som e atmosfera semelhante, sendo que dito isso, entra na questão do disco poder soar chato algumas vezes. Por mais que estamos diante de uma debandada de padrões rítmicos e cantos complexos, de alguma forma também parecem repetitivos em alguns momentos. De qualquer forma, apesar disso, acho que ao menos duas faixas em especial merecem menção. 

A faixa título, “Tchokola”, é certamente a minha favorita do disco e provavelmente a única rica e complexa de fusion que Ponty presenteia o ouvinte durante todo o álbum. Violino belíssimo, estrutura jazzística maravilhosa e uma percussão africana ao fundo de muita sutileza e muito bom gosto. Ponty assume o controle aqui de uma maneira que deveria ter acontecido em todas as outras faixas do disco. De longe a melhor do álbum. 

A outra música, “Mouna Bowa”, tem um equilíbrio mais do que perfeito entre o jazz e a sonoridade afro beat. O trabalho de Ponty é uma verdadeira delícia de ouvir, nota-se que o músico mais do que estar tocando, parece estar se divertindo bastante, usando o violino como se fosse uma criança com seu brinquedo preferido. Mas quem certamente merece uma menção é o baixista Guy N'Sangué – que inclusive iria acompanhar Ponty por mais alguns anos. Seu baixo é extremamente forte e lidera com verdadeira maestria a seção rítmica. Maravilhoso define. 

Se olharmos de uma perspectiva geral, não tem como não admitir que Tchokola é um disco muito interessante, principalmente do ponto de vista exploratório, mas não é exatamente o que o ouvinte pode esperar de quando falamos de um disco de Jean-Luc Ponty. Eu sempre fui a favor de artistas ou bandas que mergulham em algo mais experimental, desde que pra isso não sacrifique basicamente toda a sua personalidade, algo que Ponty acabou fazendo aqui. Mas no geral, e como dito, mesmo com o risco de às vezes soar chato devido algumas semelhanças de suas atmosferas, há pontos que fazem deste um bom disco.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Tchokola

Álbum disponível na discografia de: Jean-Luc Ponty

Ano: 1991

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3 - 1 voto

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