Resenha

The Mantle

Álbum de Agalloch

2002

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

10/06/2020



The Mantle é uma obra de arte profunda, ambiciosa e intensa

Se nos anos setenta, seguir um disco de estreia com outro tão bom ou até mesmo melhor, era algo comum, hoje em dia isso já não parece ser algo tão fácil assim, porém, acontece que a Agalloch, através do seu segundo álbum, The Mantle, mostra exatamente isso, uma enorme evolução, criando o seu disco – até o momento – mais forte. 

Após uma estreia extremamente positiva, a banda como qualquer outra, se sentiu um pouco pressionada em não deixar com que a chama criada com Pale Folklore se apagasse na criação The Mantle. Com essa preocupação e cuidado, e como dito no primeiro parágrafo, a banda não apenas entregou um disco superior, como também um álbum que se tornaria a inovação do grupo, sua obra-prima e disco mais querido pela maioria dos fãs. 

The Mantle é um disco em que o ouvinte não pode culpa-lo em momento algum por falta de originalidade, repetição ou por possuir apenas ideias antigas e estagnadas. Muitas vezes soa como uma espécie de fantasia celestial, uma quietude de outro mundo. Mesmo que você não goste de vocais rasgados, gutural, ainda assim eu peço para que você dê uma chance para este disco. 

“A Celebration For The Death Of Man…” é a música que abre o disco. Com quase dois minutos e meio é uma faixa instrumental acústica que define o clima do álbum muito bem, além de evidenciar as influências prog folk da banda.  “In The Shadow Of Our Pale Companion” possui quase quinze minutos, e talvez seja a melhor música – entre as menos acessíveis - pra apresentar a Agalloch a um ouvinte que desconhece a sua estética e não teve a percepção do que é a banda. Sendo a faixa mais longa do álbum, contem composições belas, exuberantes e carrega um sentimento comum e conhecido do grupo, além de outros elementos que a edificam conforme vai evoluindo. Algo que vale mencionar é a atenção da banda em relação às letras, com o grupo dando uma atenção maior a elas, além de serem mais poéticas. Esta música é capaz de causar alguns arrepios na espinha e fazer com que o ouvinte absorva o mundo mágico e imaginário criado por ela. A segunda metade da música é onde podemos perceber algo mais notável – embora eu ache que ela seja notável como um todo -, através de melodias majestosas, boas harmonias vocais e um solo de guitarra excelente. 

“Odal” é outro momento instrumental do disco, mas agora chegando perto dos oito minutos. Expandindo-se para uma sonoridade além do progressivo folk, sendo assim, tomando uma direção mais influenciada pelo post rock. A faixa possui um som bastante rico. “ I Am The Wooden Doors” é certamente um dos momentos mais pesados do disco, porém e infelizmente, não diz muita coisa. De qualquer forma acho que vale ressaltar algo que a banda sabe fazer muito bem, misturar riffs distorcidos de guitarra com vocais de black metal e seção acústica mais limpa. 

“The Lodge” é outra faixa instrumental e que está repleta de violões, além de contar com o acréscimo de dois instrumentos incomum dentro da proposta musical da banda, mas que deram um resultado bastante interessante. Os instrumentos no caso são o contrabaixo e a utilização de sample na percussão. Eles acabam adicionando uma vibração bastante pessoal à música, lhes dando uma sonoridade quase sombria. Esta é a faixa mais curta do disco, deixando aquele desejo de quero mais, porém, isso logo passa assim que a próxima faixa se inicia. “You Were But A Ghost In My Arms” traz de volta para o álbum um som mais pesado. Como é de se esperar, tem uma alternância entre vocais mais pesados e outros mais limpos. O trabalho de guitarra e violão é excelente. A bateria embora seja simples é bastante eficaz. Existe um momento de palavras faladas seguidas por um diálogo aparentemente sobre um homem que foi deixado por sua mulher e seu questionamento sobre motivo dela ter feito isso. Após isso a música segue instrumental por cerca de dois minutos.

“The Hawthorne Passage” é a última faixa instrumental do disco. Com cerca de dez minutos, tem na sua primeira metade uma melodia básica de violão e guitarra, acompanhados por bateria e baixo tocados novamente através de uma maneira bastante influenciada pelo pós-rock, principalmente se analisarmos a metade da primeira parte da música. A música entra em um solo climático. Então que mais ou menos na metade da faixa, escutamos alguns sons de carros passando, que logo é seguido por guitarras e baterias que regressam a faixa. Existe um trombone próximo ao final, que termina com algumas palavras faladas. “...And The Great Cold Death Of The Earth” sinaliza que o fim do disco está próximo, através do retorno de um trabalho de violão na maioria das vezes também presente na faixa de abertura. Tem na sua configuração, semelhança com o que foi visto até o momento, ou seja, uma alternância entre vocais limpos e mais ásperos, guitarras acústicas e elétricas junto com um padrão de bateria simples. Agalloch prova aqui o que fez no disco inteiro, possuir uma capacidade enorme de criação de harmonias memoráveis. “A Desolation Song” é a faixa que marca o final desta jornada musical. Não é mais do que violão acompanhado por baixo e acordeão. A letra é sussurrada e pelo que vi parece ser sobre um homem bebendo envolta de uma fogueira. Há ainda espaço para um bandolim no meio da música, continuando em seguida o mesmo formato acústico até que venha um forte vento e marque o fim do álbum. 

Este disco é uma verdadeira experiência e que fará com que o ouvinte sinta cada emoção que estiver dentro de si antes que ele chegue ao fim. Costumo dizer que é melhor que seja ouvido como um todo para que seja obtido o efeito máximo de sua música. Mais do que citar faixas de destaque, é deixar com que o ouvinte sinta o fluxo constante de uma direção musical sem erros. The Mantle é uma obra de arte profunda, ambiciosa e intensa.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

The Mantle

Álbum disponível na discografia de: Agalloch

Ano: 2002

Tipo: CD/LP

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