Resenha

Battlefields

Álbum de Burning Hearts

2017

CD/LP

Por: Roberto Rillo Bíscaro

Colaborador Especialista

04/06/2020



Os melancólicos corações ardentes do synthpop finlandês

Há pouco mais de uma década, a vocalista Jessika Rapo e o baterista Henry Ojala fundaram sofisticado duo de synthpop, o Burning Hearts. Não vieram de Londres, Nova York ou Berlim, mas, em termos de música pop, da menos lembrada Finlândia. E ainda se dão ao luxo de dispensar a capital Helsinki e gravar no interior, lançando por microsselos. A extravagância que não se podem dar, porém, é a de cantar em seu idioma pátrio. As ótimas composições são em inglês, o que os já levou até para shows em Nova York. Mas, não daria para pedir mais da dupla: no mundo globalizado, o idioma para furar fronteiras é o de Shakespeare. Rapo e Ojala devem encher de vergonha invejosa muito artista anglo-ianque, porque as letras são muito criativas.

O barateamento dos sintetizadores, a partir do fim dos anos 1970, possibilitou que as bandas pudessem se reduzir a apenas um par de membros, por isso nos 80’s, duplas como Eurythmics, Pet Shop Boys, Yazoo, Tears For Fears e tantas outras, dominaram a cena. É nessa tradição eletro-oitentista que se encaixa o Burning Hearts.

Em maio de 2017, saiu Battelfields, seu terceiro álbum, com nove faixas cheias de belas melodias transbordantes de melancolia, sem serem tristes. Rapo e Ojala usam a tecnologia para trazer um som que parece de banda física e não coleção sobreposta de instrumentos computadorizados. As letras são muito inteligentes, como a da bela Atacama, que abre e fecha o álbum: “my scars could cover most of Atacama/Dry and cold/Won’t you warm me up”? Em Work Of Art, o eterno coração partido de Rapo explica, “I have no real title/I work without any degree/But I do know how to speak fluent cardiology”. Num mundo pop dominado por bravatas cheias de palavrões – ainda por cima escritas por nativos em inglês – Burning Hearts parece Shelley. Work Of Heart ainda tem a destacar no teclado o cromossomo Kraftwerk, fase The Man Machine (1978).

Battlefields é repleto de harmonias e teclados inverno-outonais, mas nunca cai no gótico. Ouça Chaos and Drama, que, a despeito do que sugere o título, lembra Enya e não Bauhaus. In My Garden tem baixo gorducho e soturno e letra que fala de um jardim sem vida, mas eis que de repente surge gélido teclado prespontando a melodia. O choque do agudo com o prevalente grave, os vocais cristalinos de Rapo e a produção mais pop não deixam o caos prevalecer, só o drama, que é o charme do Burning Hearts: muito drama! Ticket tem guitarrinha sampleada, mas o negócio da dupla é synthpop.

A única faixa dançável é Folie à Deux, que vai direto na veia do que significa o Burning Hearts: synthpop europeu anos 80; a faixa agradaria tanto a fãs do pop brasuca do Metrô, quanto a amantes do The Cure, fase The Forest. Irresistível. Bodies As Battlefields é como se o The Other Two – aquela metade bem menos famosa do New Order – tivesse chamado o produtor de Robin S para uma colaboração.

Fofo, bom, acessível para alunos de inglês cantem junto, porque a vocalista não é nativa, Burning Hearts é uma delícia.


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Sobre Roberto Rillo Bíscaro

Nível: Colaborador Especialista

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Sobre o álbum

Battlefields

Álbum disponível na discografia de: Burning Hearts

Ano: 2017

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 1 voto

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