Resenha

Caja De Pandora

Álbum de Caja de Pandora

1981

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

29/05/2020



A excelência musical da Caixa de Pandora

Provavelmente esta seja a resenha do disco mais obscuro publicado por mim, pelo menos até o momento, algo que eu deveria ter feito inclusive antes, pois o que esses mexicanos fizeram no começo dos anos oitenta foi excelente. Há algo dentro das bandas latino-americanas que eu simplesmente adoro e que é o fato de poder encontrar dentro de um gênero determinado muito mais do que ele normalmente tem a oferecer. Também é bastante comum encontrar referências étnicas cuidadosamente misturadas com a sonoridade sinfônica, fazendo com que no final normalmente seja mais rico do que o que bandas mais limitadas, digamos assim, tem a oferecer. Caja de Pandora se encaixa em exatamente nisso tudo, suas referências folk não são tão claras como em outros grupos, mas ainda assim existem, e de tal maneira que se você não ouvir atento não irá percebê-las. Já na sonoridade sinfônica os elementos são mais evidentes, mas quanto mais se ouve com atenção, mais se descobre sobre eles. 

“Apocalipsis” começa de maneira bastante forte, teclados exuberantes e às vezes até mesmo distorcidos, onde as habilidades de Alejandro Lomelin são mais do que evidentes. Mas ainda assim tem um probleminha, depois de um minuto se torna um pouco repetitivo, até que chega o solo dramático de guitarra que encerra a faixa com um humor diferente. 

“Cuento De Hadas” tem uma introdução folclórica bastante estranha e que fica difícil de definir se foi inspirada na música nativa americana, maia ou oriental, mas no fundo este mistério é uma de suas belezas, preparar o ouvinte pra nada específico. Mas há uma breve mudança que a coloca orientada para uma sonoridade frenética, mas logo a música se transforma em uma suave trilha sinfônica fluida interrompida por seções curtas nas quais a atmosfera da introdução da música é repetida. 

“Ilusion” tem a introdução baseada em um baixo jazz, com um piano rápido que aprimora o estilo, além de uma bateria sólida, porém, a música gradativamente começa a se transformar em uma forma suave de rock sinfônico, ainda que por vezes sofra explosões instrumentais. Solos distorcidos de guitarra são brilhantes e edificam a faixa. 

“Requiem Para El Silencio” mostra novamente um lado mais jazzístico da banda, pode parecer apenas uma impressão meio pessoal, mas eu sinto uma influência de Focus nas suas atmosferas mais suaves. Após um minuto o que acontece é uma grande e drástica mudança para uma elaborada fantasia sinfônica neoclássica de sons e influências, mas por apenas um curto período antes de voltarem às seções jazzísticas que são mantidas até o fim. 

“Horizontes” traz o ouvinte de volta para o território sinfônico, uma música com mais energia e poder que as anteriores que eram mais calcadas no jazz, mas pra ser mais honesto, também noto algumas influências de AOR, especialmente nos teclados típicos dos anos oitenta. 

“Camino Magico”  é sem a menor sombra de dúvida uma das melhores faixas do álbum. O começo é suave e sincopado, mas não demora muito para se transformar em uma expressão complexa de progressivo sinfônico, onde novamente é possível notar influência no Focus, especialmente nos solos de guitarra.  

“Reunion” é uma pequena faixa jazzística com umas incursões de hard rock e uma performance de piano e mudanças surpreendentemente abruptas, na verdade funciona muito bem como uma introdução para a dramática “Luz En La Obscuridad”, que me faz lembrar William de Rossini, “Willian Tell Overture”, não digo nem que se ela pareçam em si, mas em algo uma me lembra a outra, mas logo ela muda pra uma linha mais misteriosa e novamente jazzística, com um gerenciamento de ritmos excelentes muito bem aprimorado pelo piano. “Esperanza” é a menor faixa do disco e que apenas o fecha de maneira melodicamente bonita e até mesmo espacial. 

Em sua versão original de 1981, estas são todas as músicas do álbum, mas tanto na versão de 1997 quanto na de 2010 eles liberaram três faixas bônus, mas que eu não irei falar sobre elas aqui – digo apenas que são ótimas -, pois sempre costumo falar somente sobre a primeira versão de cada álbum. 

Mas o que dizer sobre esse disco? Bom, antes de qualquer coisa, eu acho lamentável uma banda desse nível não ter durado mais do que dois verões.  Álbuns instrumentais são sempre arriscados e podem cair com muita facilidade no desgosto de qualquer, mas eles fazem uma música empolgante e de grande beleza, sem deixar com que em nenhum momento baixe a alta frequência da qualidade do disco.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Caja De Pandora

Álbum disponível na discografia de: Caja de Pandora

Ano: 1981

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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