Resenha

Selvagem?

Álbum de Os Paralamas Do Sucesso

1986

CD/LP

Por: Marcel Dio

Colaborador Sênior

10/05/2020



Reggae e questões sociais, a tendência desse clássico

Esse foi um grupo que teve rápida ascensão, passando pela singeleza e ingenuidade do primeiro álbum e consolidando-se no mercado com O Passo do Lui.
O Passo do Lui tem mais canções de sucesso, aproximadamente sete faixas candidatas a tocar nas FM(s) da época e tido como o melhor álbum de Os Paralamas do Sucesso por oito em cada dez fãs. Mesmo com todos os atributos desse clássico, fico com Selvagem?. O principal motivo dessa escolha são as questões sociais exploradas, ao contrário do antecessor que dirigia as letras somente em canções de amor. Foi uma ponte que abriu horizontes  e também elevou o som deles para a brasilidade espontânea em coparticipação com o reggae.
A arte da capa tem Pedro Ribeiro, o irmão de Bi Ribeiro,  garoto magrelo que deveria pesar uns 30 quilos, isso se estivesse molhado e com os bolsos cheios de areia. Na ilustração ele esta num acampamento numa área de cerrado em Brasília.

"Alagados" é a faixa de abertura e a mais conhecida deles, aquela que levanta o astral apesar da letra reveladora. É um tapa da cara sobre o fenômeno da ilusão e carência religiosa dos latino americanos. Deixa a ferida exposta em uma curta frase : " A arte de viver da fé, só não se sabe fé em quê ". Inclusive com participação de Gilberto Gil nos vocais. A seção instrumental é a brasilidade comentada acima, pois enquanto a maioria das bandas usurpavam do post punk, o Paralamas escolheu um caminho que o diferenciaria de todos no cenário.
Batuques e um solo arrebatador de Herbert Vianna, são os pontos cruciais.

A sonoridade de "Teerã" é o que será detectado na maior parte de Selvagem?, o dub reggae. Teve pouco destaque comercial e abordou os conflitos do oriente médio, pedindo atenção especial as crianças.

"A Novidade" trás letras de Gilberto Gil. Salvo engano em uma estória que ouvi a muito tempo, Gil cantarolou a composição a Herbert por telefone e o mesmo ficou estasiado com o que ouviu. A letra sempre poética de Gil ia como flecha ao coração de um mundo onde o dinheiro vale mais que qualquer vida. Como alvo a desigualdade social, mascarada ou anestesiada pelo velho Panem et circenses romano, agora na versão brasileira para carnaval e futebol.

"Melô do Marinheiro" vem no ritmo contagiante para quebrar um pouco a seriedade do trabalho. O velho conto do sujeito que achou que ia se dar bem viajando de graça e teve que trabalhar duro para pagar a "estádia". Assim é emendada a "quase instrumental" Marujo Dub. São basicamente a mesma peça, sendo a segunda com alguns vocais com efeitos a pegar palavras do refrão de Melô do Marinheiro.

A faixa homônima como pede o nome, é uma pancada sobre as instituições, xenofobia e racismo, Enfim, um pescotapa no estado de direito, um chute no papel morto da constituição. 
Apresenta ainda bons e sujos riffs de guitarra a la Keith Richards em uma base dub. João Barone poderia improvisar, fazer viradas, mas mantem-se linear e segue o bom arroz e feijão junto ao contrabaixo.

"A Dama e o Vagabundo"  dá um descanso ao social e conta a vivência de um casal na distribuição de funções corriqueiras e revezamento das mesmas. De cara chama a atenção pela simplicidade instrumental, mas não se enganem, essa simplicidade é uma das melhores partes desse show. Sem solos de guitarras, apenas uma linha reta e cativante com os graves falando alto o tempo todo.

Se a missão fosse riscar alguma faixa desse álbum, não pensaria duas vezes em faze-lo com "There's A Party", essa, cantada em inglês e exalando a parte chata de ska misturado ao punk. A voz de Herbert Vianna não encaixa bem nessa linguagem, é tipo Joel Santana cantando.

"O Homem"  também passou ao teste do tempo, com partes que remetem a banda Alpha Blondy. Fala sobre a luta interna do homem contra ele mesmo e também a desesperança sobre as doutrinas.

"Você" foi escolha correta para o único cover do disco. Conseguiram transformar o romantismo de Tim Maia em um ... adivinhem o que ? ah, sim, um reggae. O interessante é que funcionou tão bem que muitos distraídos nem sabem que a música é de Tim Maia. Não cabe comparar o vozeirão de Tim com a boa versão de Herbert, o fato é que tocou horrores, ficando tão manjada que hoje é suplício ouvir, tomando como exemplo o caminho de "Vamos Fugir" de Gil e Liminha.

O som de Selvagem? abriu caminhos sobre os rótulos da banda, que não se apegava ao rock da forma que a maioria fazia. Com isso ampliaram o leque de ouvintes, levando-os a tocar no famoso Festival de Jazz de Montreux na Suíça.


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Sobre Marcel Dio

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Sobre o álbum

Selvagem?

Álbum disponível na discografia de: Os Paralamas Do Sucesso

Ano: 1986

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 5 votos

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Veja mais opiniões sobre Selvagem?:

  • 17
    mai, 2021

    Grande álbum dos Paralamas do Sucesso

    User Photo alexmachad

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