Resenha

Sempre

Álbum de Marcos Valle

2019

CD/LP

Por: Vitor Morais

Usuário

28/04/2020



Revisitando o passado da forma mais moderna possível

“Sempre” é o vigésimo álbum de estúdio do cantor e compositor Marcos Valle, lançado em 2019. O álbum marca o retorno do artista aos estúdios, já que seu último álbum havia sido lançado 9 anos antes, o “Estática” de 2010. Além disso, Marcos retornou também à sua sonoridade boogie, característica de seus álbuns dos anos 80, mas sem soar ultrapassado. Este estilo quebra com a linha que os seus álbuns anteriores vinham seguindo, mais voltados para o jazz, mpb e bossa nova.

O álbum inicia com “Olha Quem tá Chegando”, com um swing único e logo evolui com o time de metais, de primeiríssima qualidade e uma batida super dançante. A faixa fala sobre os políticos e autoridades que se corrompem por dinheiro, mas o assunto é tratado com muito bom humor e muito swing.  A sonoridade remete muito aos grandes sucessos do começo dos anos oitenta, sucessos das discotecas e pistas de dança, mas sem perder o aspecto moderno da música. 

“Minha Romã” é um dos destaques do álbum, e é marcada pelo incrível trabalho de baixo de Alex Malheiros (Azymuth), compondo uma linha de baixo que apesar de simples, é extremamente groovada e marcante. Outro destaque são os sintetizadores que remetem ao disco “Previsão do Tempo”, e o órgão de Marcos, que dita a melodia com maestria. A letra é comum e fala sobre uma paixão ou um amor, o interessante é como ela se encaixa perfeitamente com o groove da faixa, como duas peças de um quebra cabeça. 
	
“Odisseia” é talvez o carro-chefe do álbum. Um instrumental de nove minutos de duração, que mistura samba, bossa nova, jazz e o boogie/disco característico do álbum.   A faixa já mostra suas influencias do samba no início, com o uso de cuícas e apitos característicos. Logo um sintetizador entra ditando o refrão da música, que será revisitado e desenvolvido ao longo a faixa. Um solo de órgão em seguida já mostra como Marcos é habilidoso e criativo com este estilo, assim como o baixo, que aqui tem menos destaque mas não menos importância, compõe um fraseado rápido e mais melódico. A faixa inteira é apenas uma mostra do que estes músicos são capazes de fazer.

“Alma” é o single do álbum, e fala sobre encontros e desencontros do amor. É uma faixa mais melódica e cantada. Apresenta uma linha de baixo bem groovada e um guitarra swingada, cortesia de Paulinho Guitarra. É importante mencionar os backing vocals de Patrícia Alvi, que além de ser esposa de Marcos e sua inspiração para esta música, é também dona de um voz muito doce, sendo muitas vezes o tempero especial da música de Marcos. 

“É Você” é outra faixa que fala sobre amor, dessa vez redigida pelo piano de Marcos. Um grande destaque desta faixa são os metais e o contrabaixo groovado, enquanto o piano e os sintetizadores são mais arrastado e melódicos. É uma faixa clássica do estilo boogie de Marcos, e combina perfeitamente com o álbum.

“Vou Amanhã Saber” passa uma mensagem muito importante: se preocupar menos com o futuro e mais com o presente, procurar ser feliz no momento atual e deixar o amanhã para amanhã. Um grande destaque aqui são os metais, que regam a faixa de forma unanime, além do incrível solo de trompete aos três minutos.

“Distância” é outro instrumental, mais lento e recheado de sintetizadores, inclusive com a voz de Marcos sintetizada. A bateria aqui tem um grande destaque, já que por horas fica apenas acompanhada do baixo ou sons variados como trovoadas. É uma faixa mais viajante, que lembra até uma estética lo-fi ou vapor-wave, menos dançante e muito gostosa de se ouvir.

“Aviso aos Navegantes” é uma música originária da parceria de Marcos com Lulu Santos no começo do milênio. A música foi revisitada neste álbum com uma roupagem completamente nova. Ótimos trabalhos de sintetizadores, metais e baixo são encontrados aqui, além do lindo back vocal de Patrícia. A faixa apesar de animada, tem um ar melancólico, muito devido ao órgão que acompanha a melodia e o refrão.

O álbum finaliza com a faixa título, “Sempre”. Regada de sintetizadores e um baixo cheio de “slaps”, a faixa traz um ótimo encerramento para o álbum, com uma reflexão sobre o tempo. Quebras de tempo são comuns aqui, evoluindo para exibicionismos extremamente criativos de sintetizadores e todos os tipos de teclados. A faixa transita entre o dançante e o melódico, por horas tendendo para um e por horas para outro. 

“Sempre” é um álbum de uma qualidade altíssima, perfeitamente pensado e executado. As gravações ocorreram com equipamentos valvulados, com o intuito de trazer a sonoridade característica dos anos setenta para este século. A ideia era trazer a sonoridade de 1980 para 2019, ideia esta que foi alcançada com maestria. Não é um álbum de top 5 de sua carreira, muito por não conter nenhuma peça impressionante ou revolucionária, mas se mantem em uma posição vantajosa pela qualidade musical e pela jovialidade que só um Marcos Valle de 75 anos poderia apresentar.


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Sobre Vitor Morais

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"Sou amante de rock progressivo e MPB mas gosto muito de outros gêneros com o krautrock, jazz, fusion, eletrônico, etc. Comecei a ouvir música e colecionar discos aos 13 anos e não parei desde então."

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Sobre o álbum

Sempre

Álbum disponível na discografia de: Marcos Valle

Ano: 2019

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 1 voto

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