Resenha

Mustang Côr De Sangue

Álbum de Marcos Valle

1969

CD/LP

Por: Vitor Morais

Usuário

27/04/2020



Um bem humorado canto de protesto

“Mustang Côr de Sangue” é o sexto álbum de estúdio do cantor e compositor Marcos Valle. O álbum marca uma grande reviravolta em sua carreira, em que o músico rompe com a estética bossa novista, que marcou os seus álbuns anteriores, para mergulhar em uma miscelânea de influências musicais recheadas de críticas sociais. Paulo Sérgio, seu irmão e letrista, está mais afiado como nunca neste disco, tecendo composições que alfinetam todas as classes da sociedade, causando até um escândalo na elite da época.
O álbum inicia com “Mustang Côr De Sangue”, faixa título do álbum e muito conhecida pela regravação feita por Wilson Simonal, companheiro de gravadora de Marcos. Paulo Sérgio se utilizou da imagem de dois carros que na época eram muito populares, o Mustangue e o Corcel, e assim construiu uma letra em que critica o consumismo exagerado com muito bom humor. Na letra o eu-lírico afirma que existe uma pressão social sobre ele e que estaria disposto à tudo para conseguir o carro que queria, até mesmo deixar a mulher virgem no altar. Logo o carro torna-se parte dele, seus faróis seriam seu olhos, a direção as suas mãos e o seu corpo o carro em si. A instrumentalização é muito animada e bem humorada, com um refrão grudento e muito la-la-la, características advindas das músicas do já citado Wilson Simonal, dono do movimento da Pilantragem. Ótimos trabalhos de metais podem ser observados aqui, bem como o clássico órgão de Marcos, que brilha nos acordes mais variados.

Logo após, “Samba de Verão 2” traz uma continuação ao maior sucesso da carreira dos irmão Valle, a lendária “Samba de Verão”. Nesta continuação, marcos nos apresenta uma canção ainda calca da na bossa nova mas com um pé para frente, com arranjos criativos e emblemáticos a canção traz um tom nostálgico em relação aos anos anteriores, como se as coisas fossem melhores e mais simples. O vocal é mais animado e acelerado em relação ao vocal usual da bossa.

“Catarina e o Vento” é uma faixa que lembra muito outras músicas de Marcos como “Preciso Aprender a Ser Só” e “Bloco do Eu Sozinho”, com um vocal muito tímido, letra triste e melancólica e um arranjo lindo de quebrar o coração. A poesia de Paulo Sérgio é belíssima e unida às habilidades musicais de Marcos resultou em uma ótima música. 

“Frevo Novo” é uma música construída no ritmo do frevo pernambucano. Com ótimos trabalhos de órgão unido à uma impressionante bateria, a mistura louca resultante mostrou-se freneticamente vantajosa.

“Azimuth” é talvez a faixa mais importante do álbum, um instrumental acelerado que mistura todos os gêneros musicais possíveis de se pensar, bossa, jazz, baião, rock e etc. O piano nesta faixa é simplesmente impecável, dotado de uma criatividade absurda e uma técnica impecável, aliado aos arranjos concisos que tornaram esta faixa um enorme sucesso. De tamanha qualidade, esta faixa serviu de nome à um trio apadrinhado por Marcos e que participaria das gravações de seu futuro álbum “Previsão do Tempo”, o Azymuth escolheu esse nome por adoração à faixa.

“Dia de Vitória” é uma clássica canção de protesto, de mesma linhagem de “Viola Enluarada” a música que traz versos que idealizam uma união jovem entorno de uma causa e indo à luta. O refrão se constrói na ideia que é preciso uma união do povo em prol desta causa e usando o amor e o canto como principal arma para vencer um governo totalitário. 
“...Ecoam a dizer que o povo acorda
E vê que o mundo é seu
Peito aberto sente que venceu
O povo acorda e vê que o mundo é seu
Peito aberto sente que venceu...”

“Os Dentes Brancos Do Mundo” é outra canção que critica o consumismo, apontando que sonhos na verdade são produtos que podem ser comercializados bem como o amor. A faixa ganhou duas versões incríveis de Evinha e Zélia Duncan. A música possui uma linda melodia e um tom levemente ácido usado para fazer a crítica, muito evidente na frase “Veja os dentes brancos do mundo”, que é repetida várias vezes durante a música.

“Mentira Carioca” é uma faixa que de uma maneira bem humorada pinta o estereótipo de um carioca segundo um paulista. O carioca aqui é pintado como aquela pessoa que nada quer: vive pensando em mulher e futebol, é preguiçoso e está sempre dando aquele “jeitinho”. A música em si é uma crítica ao preconceito do paulista em relação ao carioca, muitas vezes visto deste jeito já descrito, mas que na verdade é tão trabalhador quanto.

“Das Três às Seis” é uma música com uma aura dramática e misteriosa. O eu-lírico aqui aparentemente é um trabalhador que se reduziu à um robô, sem ideia de si mesmo e sem a capacidade de amar, que só é capaz de produzir e consumir. Outra crítica à sociedade do consumo e também ao modelo fordista de produção, semelhante à “Tempos Modernos” de Chaplin.

“Tigre da Esso, Que Sucesso” é uma crítica escancarada à publicidade excessiva. A música faz referência à Esso, empresa de combustível americana que veio ao brasil em 1912 e fundou o Repórter Esso, primeiro programa jornalístico brasileiro patrocinado, que trazia notícias do mundo afora com exclusividade, mas apenas se estas fossem de interesse dos EUA. A empresa também era famosa pela sua publicidade e seu mascote, um tigre. A letra mostra como a televisão tem o poder de influenciar as pessoas à comprarem algo ou até mudar a opinião pessoal desta.

“O Evangelho Segundo San Quentin” tem talvez a letra mais impactante do álbum, insinuando que se Jesus voltasse ao mundo cometeria suicídio. A instrumentalização também colabora com o sentimento dramático e até catedrático da música, com corais e um órgão de igreja, cantando a desgraça e o terror. Na letra, se Jesus voltasse se enforcaria de tamanho desgosto, e viraria o átomo da bomba H, o que pode chocar um ouvinte hoje e naquela época se tornou quase um escândalo. 
“Se o redentor voltar ao mundo
Irá pra cruz morrer de novo
Ou pendurado no hall do elevador”

“Diálogo” é a faixa que encerra o álbum com uma linda parceria com o maravilhoso Milton Nascimento, que já havia trabalhado com Marcos na música “Viola Enluarada”. A faixa de protesto afirma que não se pode deixar que o medo (censura) impeça ninguém de cantar, e que o canto é a maior arma contra o governo, e a melhor forma de se unir ao seu irmão de luta.

“Mustang” é sem dúvidas um divisor de águas na carreira de Marcos, marcando o fim da fase de bossa nova e o começo de uma prolífica fase, cheia gêneros, influencias das mais diversas, temas sociais e políticos e muita liberdade musical. O álbum é até hoje considerado um dos melhores de sua carreira e um dos mais políticos também.


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Sobre Vitor Morais

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"Sou amante de rock progressivo e MPB mas gosto muito de outros gêneros com o krautrock, jazz, fusion, eletrônico, etc. Comecei a ouvir música e colecionar discos aos 13 anos e não parei desde então."

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Sobre o álbum

Mustang Côr De Sangue

Álbum disponível na discografia de: Marcos Valle

Ano: 1969

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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