Resenha

Rabbit

Álbum de The Tea Club

2010

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

23/04/2020



Camadas de melodias e ritmos que criam um padrão melódico em constante mudança

Ao contrário do que aconteceu com o seu disco de estreia em relação a mim, eu não me apaixonei imediatamente por Rabbit. Isso quer dizer que se trata de um disco inferior? Não, longe disso, mas Rabbit é um tipo de álbum que pode demorar um pouco mais a se instalar no cérebro do ouvinte, porém, uma vez acomodado, se torna tão grande quanto. O álbum contém aquilo que se tornariam tradições em cada disco da banda, uma mistura de música pesada, suave e em alguns momentos até mesmo teatral. Em relação a sua estreia é nítido perceber que a banda cresceu – algo que faria em todos os álbuns seguintes – e entrega composições mais fortes. Novamente o trabalho de baixo, guitarra e teclado não são nada menos do que incrível e bastante equilibrado. Se quebrar fronteiras e causar uma forte reação no ouvinte é uma das coisas que se esperam do rock progressivo, a The Tea Club consegue isso muito bem em Rabbit – como em todos seus discos. 

“Simon Magus” começa o disco maravilhosamente bem. O nome da faixa como é por conta de uma referência feita a “Simão, o Mago”, um conhecido herege e personagem bíblico, um conceito bastante complexo pra se fazer uma música. Possui uma letra excelente e o ouvinte é colocado em um limbo. Cheia de complexidade, dramaticidade e força com os teclados criando uma atmosfera 	quase sacra e as guitarras em uma sonoridade meio contraditória. Aquele tipo de música que o único problema é que ela acaba. 

“Diamonizade” começa de uma forma bem mais suave que a faixa anterior, mas sem deixar de ter agressividade, os vocais soam como se estivesse em lamentação, mas ao mesmo tempo são bastante agradáveis, pois combinam perfeitamente com uns trabalhos de guitarras quase caóticas, ao fundo ótimos e hipnotizantes teclados e uma bateria forte mantem a coerência da faixa, fazendo deste mais um número incrível. 

“The Night I Killed Steve Shelley” segue o fluxo das faixas anteriores, ou seja, uma música de áurea sombria, complexa, misteriosa, além de bastante elaborada e com vocais muito poderosos. Nos teclados são adicionados alguns sons bastante assustadores que é incrementado por uma ótima linha de guitarra. Possui uma seção final bastante caótica que segue em uma espécie de Radiohead com Fantômas, uma viagem maravilhosa. Uma música que mistura linha depressiva e complexa com estrema destreza. 

“Royal Oil Can” tem o seu início de maneira acústica e melosa, como se a banda quisesse dar um alívio aos ouvidos que presenciaram três faixas mais agressivas. Novamente a atmosfera criada pelo teclado é incrível, sutil e encantadora. Os vocais também merecem atenção, pois são excelentes. 

“Out Of The Oceans” começa de forma poderosa e violenta, mas de uma maneira que parece que estou ouvindo o primeiro disco da banda – o que não tira o mérito da música -, mas apesar de possuir a mesma força instrumental, aqui as coisas se desenvolvem em uma linha mais crua de rock e menos misteriosa. 

“He Is Like A Spider” mostra a banda de uma maneira bastante diferente, e se não fosse por algumas de suas características claras e bonitas dissonâncias, poderíamos até acreditar que estamos ouvindo outra banda. Tem uma levada jazzística bem mais fluida do que as faixas anteriores, o que no final é muito bom e prova a versatilidade da banda. 

“Nuclear Density Gauge” é mais uma faixa um tanto estranha, talvez a mais complexa e elaborada até esse momento do álbum. As clássicas mudanças radicais entre bonanças e tempestades instrumentais faz com que o ouvinte se mantenha interessado em cada segundo da faixa, afinal, o ouvinte nunca sabe o que estar por vir. 

“Tumbleweeds” é a faixa onde mais se nota algumas influências de música alternativa/indie de forma mais óbvia, confesso que não gosto quando a banda apresenta esse lado de forma muito nítida, quando demostra veia de Radiohead, mas o que sempre salva é que o som é sempre muito mais desenvolvido que o de qualquer banda desse gênero. Serve como uma boa introdução para o épico que encerra o disco. 

“Astro” é a música mais longa e a que encerra o disco. Com mais de onze minutos, mostra uma grande variedade de sons e influências, mas nunca perdendo a sua linha atmosférica, misteriosa e melancólica de sempre. Muito bem escrita e emocionante, algo que atrai muito na The Tea Club é que eles combinam muito bem energia e um espirito jovial com certo cansaço mundial e imediatismo emocional, sendo isso certamente um dos fatores que permitem com que a banda soe sempre tão atraente. 

Rabbit é um exemplo excelente de rock progressivo moderno, uma música com muito frescor e personalidade, além de certa sensibilidade pop, mas sem todo o sentimentalismo que costuma vir junto a esse tipo de música. Um disco com uma data de validade enorme e que o ouvinte sente a vontade de ouvir sem parar, pois sempre parece descobrir algo novo a cada audição. Resumindo, a música do disco é do tipo que eles fazem bem, ou seja, camadas de melodias e ritmos que criam um padrão melódico em constante mudança.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Rabbit

Álbum disponível na discografia de: The Tea Club

Ano: 2010

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 1 voto

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