Resenha

Wɔyaya

Álbum de Osibisa

1971

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

22/04/2020



Misto de progressivo e jazz, muita percussão, musicalidade exótica e envolvente

Eu costumo dizer que às vezes uma grande maldição que pode acontecer com uma banda é ter um disco de estreia excelente, um disco acima da média, pois após um lançamento assim, as pessoas esperam algo até melhor que o primeiro no segundo, um desejo que nem sempre é fácil de realizar, principalmente porque em muitos casos a banda está em processo de desenvolvimento e pode muito provável até mudar o seu som, o moldando de outra maneira, resumindo, fazer algo que nem sempre os fãs estão prontos para aceitar, por isso inclusive existem muitas bandas que são chamadas de “maravilhas de um hit”, unicamente por não terem sido capazes de ao menos repetir sua estreia. Por que eu estou falando isso? Bom, porque a Osibisa teve uma estreia fantástica com o seu disco autointitulado e quase que imediatamente se colocaram nessa prova de fogo lançando um segundo disco, que pra alegria de todos, conseguiu ser melhor ainda, desde suas músicas quanto a própria qualidade de gravação. 

“Beautiful Seven” começa não apenas como se estivéssemos ouvindo a introdução de um disco, mas a introdução de um show. Soa como uma espécie de cerimonia tribal que recebe mais um novo dia de sol, cheio de sons selvagens. Mas conforme a música vai avançando é fácil perceber que estamos diante de uma banda extraordinária. Uma bela flauta combinada com cânticos cerimonias, guitarra psicodélica ao melhor estilo Santana nos seus primeiros anos musicais, narração e gritos que surpreende qualquer ouvinte que não esteja acostumado com uma música menos convencional. Incrível do começo ao fim. 

“Y Sharp“ explora uma linha sonora mais voltada para o afro funk, com uso de guitarra wah wah, trombetas, saxofone e um ritmo bastante frenético. Mas ela não é tão simples quanto parece, os arranjos bem elaborados, as dissonâncias controladas e o sentimento jazzístico conseguem manter o disco em um nível elevadíssimo. 

“Spirits Up Above” tem uma grande combinação de jazz com psicodelia. Enquanto que Robert Bailey faz o hammond chorar, Loughty Amao, Teddy Osei e Mac Tontoh acalmam o clima com os instrumentos de sopro. Mas obviamente que a música tem mais a oferecer, os belos cânticos e o elaborado vocal combinam muito bem a nostalgia do blues com as músicas africanas, mas se isso não bastasse, a longa seção instrumental do fim é uma incrível explosão de ritmo e melodia. Simplesmente alucinante. 

“Survival” é tudo aquilo que devemos esperar de uma banda africana do início dos anos setenta e que raramente é encontrado, ou seja, uma fusão não menos que perfeita entre ritmos tribais africanos, rock e música psicodélica, além de um bom funk. Tudo é cuidadosamente bem equilibrado para que não pareça extravagante e sem propósito, tudo está no lugar que deveria estar e faz dessa faixa mais um perfeito sucesso. 

“Move On” possui uma introdução ao baixo e percussão, o som de congas, chocalhos, bongôs e bateria se derretem em um ritmo contagioso, enquanto que os instrumentos de sopro adicionam um toque caribenho e os gritos de hammond sustentam muito bem suas lacunas. Mas nada nessa música é mais acertado do que a performance de guitarra de Wendel Richardson, um estilo novamente bastante influenciado por Santana. 

“Rabiatu” começa com uma cortesia dada por Roy Bedeau e seu poderoso baixo, abrindo caminho para a explosão de instrumentos de percussão que levam a outra mistura frenética de sons e humores do continente negro e um toque de sabor caribenho fornecido por Roger Bayley de Trinidad e Tobago e Wendel Richardson de Antígua que toca uma guitarra não menos do que matadora. A extravagância final da percussão é delirante.

“Woyaya” é a faixa título e que finaliza o disco em um momento que achamos que nada mais pode melhorar, mas será que não? É uma balada africana mágica e com um ar misterioso e letras melancólicas, possui um hammond onírico e, como sempre, uma percussão perfeita, mas desta vez com a adição de excelentes solos de flauta. Uma faixa de beleza incomum onde tudo se encaixa perfeitamente. 

Um disco de sonoridade única, progressivo e jazz misturado a muita percussão, instrumentação exótica e envolvente além de batidas até mesmo dançante, afinal, não tem como o ouvinte ficar parado enquanto esse disco toca, então nem que seja batendo os pés ou batucando com as mãos em algum lugar você vai ficar a partir do momento que perceber estar abraçado pela música da banda.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Wɔyaya

Álbum disponível na discografia de: Osibisa

Ano: 1971

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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