Resenha

Fool's Mate

Álbum de Peter Hammill

1971

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

21/04/2020



Uma carreira solo de estreia muito boa

O disco de estreia de Peter Hammill teve a sua gravação entre H To He Who Am The Only One and e Pawn Heart da Van der Graaf Generator, porém, o disco é um verdadeiro derramamento de coisas que a sua banda não estava fazendo, ou seja, canções pop, músicas de atmosferas positivas, letras ingênuas e alegres entre tantas outras coisas. Felizmente, no fim das contas todo esse lote é tomado por uma pitada de ironia, profissionalismo distinto e uma legião de excelentes músicos como Robert Fripp, Hugh Banton, Guy Evans e Nic Potter, isso pra citar apenas quatro deles. No geral a maioria das músicas do disco são muito boas. 

“Imperial Zeppelin” é uma espécie de rock filosófico e caricatural. A interação entre os instrumentos é assustadora e profundamente incomum e possui até mesmo uma seção vocal do tipo R&B. O disco começa com uma das suas melhores músicas. Os vocais de Hammill variam entre alguns estilos, sendo muito bem feitos em todos eles. 

“Candle” é uma balada que cairia bem no disco de estreia da Van der Graaf Generator. A presença do bandolim é talvez o principal suporte da música. A melodia vocal é meio confusa. O piano é bom, mas a música como um todo esfria o álbum depois de um começo tão quente. 

“Happy” tem uma melodia muito boa, uma interação deliciosamente compacta e bem alinhada do tipo encontrada na Van der Graaf Generator – Hammill também sabia criar músicas positivas e esse é um exemplo – e uma melodia vocal excelente. O floreio entre bateria e órgão no final é simplesmente maravilhoso e fecha a música com chave de ouro. 

“Solitude” é a primeira música do disco que possui um clima mais “mal humorado”, com uma sonoridade acústica assombrosa, juntamente com um vocal estranho e um lindo trabalho de harmônica. O baixo de certa forma pode ser visto como supérfluo para o resto da música, mas quando junto da bateria e um violino ocasional tudo fica brilhante. O clima dessa música é sensacional. 

“Vision” é uma peça de piano e voz. O som do piano está maravilhosamente bem desenvolvido, a voz entra em cena sempre com precisão, harmonia e melodia do tipo que preencheria qualquer canção de amor, mas sem soar dentro daquele clichê em notas felizes e alto astral. Mais um belíssimo momento do disco. 

“Re-Awakening” possui inicialmente uma combinação grandiosa de órgão e piano que impressiona, assim como a respiração de Hammill que parece estar acelerada em quase todos os versos. Mas mesmo assim não chega a ser uma música que figura entre os melhores momentos do disco. 

“Sunshine” apresenta David Jackson e Robert Fripp tocando uma espécie de blues incomum e pouco convencional, porém, com grande vigor. A voz de Hammill se desenvolve muito bem por toda a faixa. Vale mencionar também o trabalho de piano jazzístico em alguns momentos. Mais outra faixa bastante positivista de Hammill. 

“Child” é uma música movida por um violão acústico com a voz e letras bastante ingênuas que demonstram poder esporadicamente. Possui algumas das exuberantes e detalhadas obras de piano de Banton, flauta casual e um solo discreto, mas bastante bonito de Fripp. 

“Summer Song (In the Autumn)” tem um começo com vocais dramáticos e que assim vai seguindo ao longo de uma boa letra e com uma ótima interação entre todos os músicos. Uma faixa potente e que se eu for escolher um destaque instrumental nela, certamente que eu diria que o órgão é onde ela mais brilha. 

“Viking” é um pouco pastoral e de vibração medieval. Encantadora e acústica, só que de letras pouco convincentes, mas ao menos traz uma abordagem sincera dos vocais. No geral uma boa música, pouco memorável, mas uma boa música. 

“The Birds” é outra peça desenvolvida através de piano e voz, mas dessa vez mais intensa por conta do belo trabalho de Fripp. O tom do piano é maravilhoso – lembrando um pouco o estilo de Toni Pagliuca – e tem uma seção rítmica muito bem construída. Os vocais possuem a qualidade assustadora que eu admiro bastante em Hammill. Um registo excelente. 

“I Once Wrote Some Poems” é uma boa conclusão de disco. A parte acústica é bastante convincente e executada inicialmente com sutileza, mas em seguida se transforma em algo de mais impacto. A capacidade de Hammill em se expressar vocalmente é algo que sempre me faz admirá-lo, além das letras serem umas das melhores do disco. 

Este é o primeiro disco de uma rica discografia de Peter Hammill. No geral é um álbum muito bom, mas é bem nítido que algumas de suas músicas parecem pertencer mais a década de sessenta do que a década de setenta. Ainda que não seja indicado pra quem quer conhecer a essência musical de Hammill em sua carreira, continua sendo um disco muito bom.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Fool's Mate

Álbum disponível na discografia de: Peter Hammill

Ano: 1971

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,5 - 1 voto

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