Resenha

Foxtrot

Álbum de Genesis

1972

CD/LP

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

18/04/2020



Um dos maiores álbuns de rock progressivo de todos os tempos!

O Genesis vinha se firmando como um dos grandes nomes do rock progressivo do Reino Unido ao lado de bandas como Yes, Emerson Lake & Palmer e King Crimson. Este trabalho especialmente funcionou como uma prova de fogo para o quinteto, que estava gravando seu quarto álbum, mas seria o primeiro com a mesma formação do álbum anterior, que contava com Peter Gabriel (Vocal e flauta), Mike Rutherford (Baixo, guitarras, violoncelo e vocais), Tony Banks (Teclados, Hammond, Mellotron, piano e violões), Steve Hackett (Guitarra solo e violões) e Phil Collins (Bateria e vocais).

Tal fato foi importante para a estruturação do que seria o “Foxtrot”, pois o grupo se apresentava ao vivo,  ganhava experiência e trocava influências entre seus membros, principalmente durante os ensaios e passagens de som, onde aconteciam longas Jam sessions e eram concebidas muitas das musicas que entrariam no futuro álbum. 

Algumas, já em fase final de acabamento, eram apresentadas ao vivo como uma espécie de laboratório, onde a banda poderia perceber a recepção do público em relação às canções inéditas, como aconteceu com “Watcher in the Skies”. Além do mais, ao final da referida turnê, o grupo alugou um amplo espaço para poder ensaiar o material composto e desenvolvê-lo de forma adequada. Todos esses fatores ajudaram a lapidar o repertorio de “Foxtrot”, deixando o disco com uma riqueza harmônica incomparável.

As gravações do álbum, que aconteceram em agosto de 1972, inicialmente foram conturbadas, pois a banda não se acertou com John Anthnoy (produtor dos álbuns anteriores Trespass e Nusery Crime). Gabriel e cia deram um tempo, fizeram uma pequena turnê italiana e na volta se enfurnaram no Island Studios em Londres e chamaram o produtor David Hitchcock (Que estava trabalhando com o Caravan),para direcionar o grupo. Embora Tony Banks não o considerasse a melhor escolha, David acabou atuando até o fim das gravações.

O disco, que possui apenas cinco canções, se inicia com a citada “Watcher the Skies”, uma das composições mais pesadas do universo progressivo. Ela se inicia plácida, com o Mellotron de Banks fazendo uma introdução sombria e introspectiva. O tema é literalmente progressivo e vai ganhando adesão de outros instrumentos. Impressionante como a banda estava alinhada até nos mínimos detalhes, como na condução do cimbal de Collins até a entrada do baixo atrabiliário de Rutherford, chegando ao ápice do tema com a entrada da inesperada e potente de Gabriel vociferando a letra de ficção cientifica baseada nos “Watchers” (O Vigia) da Marvel Cosmics. Trabalho de gênio! A canção foi escrita por Banks e Rutherford em Reggio Emilia, ao norte da Itália;

O álbum segue com a poética “Time Table”, amplamente calcada no piano de Banks. Uma canção romântica, com sua letra medieval que fala da época de reis e rainhas. É um tema tranquilo, que se mostra bem vindo após uma musica forte como a anterior;

O progressivo épico retorna em “Get 'Em Out by Friday”, onde Gabriel faz uma crítica ao sistema de moradia na Inglaterra, utilizando uma temática futurista que fala sobre controle genético e social, onde interpreta simultaneamente quatro personagens de maneira magistral, sendo o destaque absoluto deste tema de mais de oito minutos. Porém, a interpretação de Peter  só foi possível graças ao instrumental irrepreensível apresentado pelo grupo;

“Can-Utility and the Coastliners” foi outra das canções apresentadas em turnê antes da gravação do álbum. O tema conta a história de um  grupo de velejadores que encontram documentos sobre o Rei Canuto e sua vontade de comandar as marés. O instrumental é  pastoral, com ares medievais, violões folk e camadas de teclados concebidas por Banks;

O antigo lado B se inicia com “Horizons”, um pequeno prelúdio de Hackett ao violão, inspirado em Bach. 

E então temos “Supper´s Ready”, uma suíte de mais de 20 minutos que muitos consideram a maior obra da banda. Em minha opinião, esta canção além de sintetizar a obra do grupo é a melhor e mais bem elaborada suíte de todo universo progressivo, não só pelo instrumental rebuscado, as intermitentes variações de andamentos e o bom gosto de cada instrumento colocado, mas também letra criada, com inúmeros trocadilhos, brincadeiras com palavras e referências que vão do primeiro ministro Winston Churchill ao faraó Akhenaton, passando Pitágoras, narciso e várias passagens bíblicas. 

O tema é dividido em sete partes tão bem estruturadas, que algumas dela funcionaram como canções individuais. A sexta parte denominada “Apocalipse in 9/8”  é uma das passagens mais fortes, e foi composta por Banks, Collins e Rutherford totalmente no improviso, uma vez que  Mike brincava com seus pedais de baixo, criando uma compasso atonal imediatamente identificado por Phill, que encorajou a trio a improvisar sobre aquela melodia.

Segundo Gabriel, esta música é uma viagem pessoal, baseado em experiências sofridas por ele e sua esposa Jill,  com inserções de passagens pelo apocalipse da Bíblia. 

Além de não possuir nenhuma tema mediano, ‘Foxtrot”, marca o final da triologia das capas desenhas por Paul Whitehead, que se iniciou com “Trespass”. O artista representa a caça a raposa em sua criação, apresentando uma mulher com cabeça de raposa. Embora nenhum integrante da banda tenha gostado da capa na época, Gabriel usaria um figurino similar em futuras apresentações.

“Foxtrot” foi lançado em outubro de 1972  e levou a banda a um inédito 12º lugar nas paradas inglesas e 1º na Itália, aumentando demasiadamente a popularidade do grupo no velho continente. Toda a critica musical deu parecer favorável ao álbum e o grupo saiu em turnê por EUA e Reino Unido por dois anos, culminando no lançamento do clássico Genesis Live em 1973.

 Este pode ser considerado o trabalho mais progressivo da fase Gabriel, com temas essencialmente complexos e rebuscados. A banda estava no auge criativo e performático, realizando um trabalho passional sem qualquer concessão ao mercado fonográfico. Todos esses fatores levaram a “Foxtrot” ser considero um dos dez maiores e melhores discos de rock progressivo de todos os tempos. Divergências à parte, o disco pode ser considerado um clássico absoluto do estilo.


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Sobre o álbum

Foxtrot

Álbum disponível na discografia de: Genesis

Ano: 1972

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,83 - 18 votos

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