Resenha

Previsão Do Tempo

Álbum de Marcos Valle

1973

CD/LP

Por: Vitor Morais

Usuário

17/04/2020



Afogado, mas não morto

“Previsão do Tempo” é o décimo álbum de estúdio do cantor e compositor brasileiro Marcos Valle. É talvez o seu álbum mais politizado e também o mais famoso, sendo aclamado por vários como o melhor de sua carreira e até como um dos melhores das música brasileira. Acompanhando Marcos como banda de apoio temos o Azymuth, banda apadrinhada e batizada por ele no mesmo ano além do O Terço, participando de duas músicas (1 e 10).

O álbum é repleto de duplos significados, a começar pela icônica capa em que marcos está submerso em uma piscina, em alusão ao sufocamento que a censura impunha à ele e aos artistas da época ou até mesmo a tortura de presos políticos.
O trabalho inicia com “Flamengo Até Morrer”, um samba que apresenta um lindo trabalho de órgão além de uma divertida cuíca. A faixa aparenta ser uma música de ovação ao Flamengo mas Marcos e os integrantes do Azymuth eram botafoguenses. Na realidade a faixa é uma tentativa de mostrar como o governo da época usava o futebol como distração para os problemas, uma espécie de pão e circo brasileiro. O Flamengo foi escolhido para a música por ser o maior time da época, com a maior torcida. 
“Nem Paletó, Nem Gravata” segue com uma escaleta que traz um toque de baião à música. Destaque também para o baixo super groovado e um dos melhores trabalhos de sintetizadores do álbum. A música por um lado parece com um ode à vida boêmia mas a mensagem que Marcos quis passar era que não se precisava de paletó ou gravata para se fazer as coisas direito, sendo que a juventude deveria tomar conta do cenário político e consertar o que estava errado. 
“Tira a Mão” possui uma das mensagens mais explícitas do álbum, mas que ainda assim passou despercebida pela censura. A música utiliza a ambiguidade da palavra “tira”, que pode significar o verbo tirar mas possui um significado oculto que é a gíria para policiais. Portanto, os irmãos Valle estavam explicitamente mandando a polícia (em palavras bonitas) se ferrar. A mensagem fica ainda mais explícita nos versos: 
“Mas tira a sua presença, se manda de vez
Vou falar francamente, não vou com você
Tira, se retira, se pira daqui
Não entendo essa língua, não entendo não”
A música traz ainda uma linda introdução no violão e sintetizadores muito bem trabalhados unidos a um órgão de primeiríssima qualidade. 
“Mentira” é a música mais conhecida do álbum e uma das mais famosas de Marcos e também uma das únicas que não contem uma mensagem política. Ironicamente foi a única censurada pelo Regime Militar, que a achou “muito sensual”. O forte da música é a sua instrumentação fortemente marcada pela soul music, no baixo extremamente grovado, a guitarra swingada, e o fraseado do teclado de Marcos que casam perfeitamente. A música é também é considerada uma das primeiras a apresentar a técnica de percussão vocal BeatBox.
A faixa título, “Previsão do Tempo” é a única instrumental do álbum (se considerarmos “Não tem nada não “como uma faixa única). A música é o casamento perfeito entre Marcos e o Azymuth. Apesar de ter uma instrumentação muito minimalista, a faixa brilha com um groove extremamente pesado. Marcos faz maravilhas com seu teclado Rhodes, sendo o protagonista da faixa, ao passo que o órgão entra e sai nos momentos apropriados. Esta é sem dúvida um dos melhores instrumentais da carreira de Marcos, se não o melhor.
Fechando o lado A, temos “Mais do que Valsa”, uma música que fala sobre amor e sofrimento. Marcos tem um vocal lindo nesta faixa, com um vocal mais agudo que o normal. A instrumentação é definida como uma “valsa grovada”, com um órgão e violão trabalhando juntos e sintetizadores separando versos. A faixa é outra que não possui conteúdo político, mas mesmo assim possui uma atmosfera pesada. 
Abrindo o lado B temos “Os Ossos Do Barão”, música tema da novela de mesmo nome, gravada um pouco antes das outras músicas do álbum. A faixa se apresenta como uma crítica à sede de dinheiro e a ganância dos mais ricos e é a mais animada do álbum. A instrumentação da música é simples e grudenta (no bom sentido) com instrumentações do maestro Waltel Branco.
“Não Tem Nada Não” era originalmente uma música composta por João Donato e o arranjador Eumir Deodato, que foi lançada como “Batuque” no álbum “Donato Deodato”, mas após João abandonar Eumir em Nova York para vir atrás de uma mulher no Brasil. No fim das contas Marcos que produziu o álbum de João Donato e acabou criando uma letra para a música, só que João achou que a música combinava mais com os vocais de Marcos, por isso deu-lha a música. O resultado foi uma das músicas mais grovadas de Marcos que em estúdio rendeu uma jam de mais de dez minutos após o fim dos vocais, que deu origem à “Não Tem Nada Não 2”, uma amostra dessa jam. Infelizmente o resto dos 10 minutos foram pagados da fita máster e perdidos para sempre.
“Samba Fatal” é a segunda música em que O Terço acompanha Marcos, que os chamou pela necessidade de um som mais pesado e voltado para o rock. A música é um tributo ao jornalista, letrista tropicalista e ativista Torquato Neto, que se suicidou no ano anterior. A música apresenta uma tensão, expressa tanto na letra quanto na sonoridade, que mistura um samba com o rock do Terço.
Em “Tiu-Ba-La-Quiêba” Marcos apresenta a história deum amigo dele que estava tão envolvido na situação de luta política que isso o levou à loucura, fazendo coisas que na cabeça dele eram ato heróicos contra o governo mas na realidade eram loucuras sem sentido. A música traz uma sonoridade simplória, com uma sequência de violão e órgão ritmados e um sintetizador interessantíssimo.
Fechando o álbum, “De Repente, Moça Flor” é um retorno nostálgico de Marcos ao começo de sua carreira, especificamente a música “Moça Flor” do seu primeiro álbum “Samba Demais”. A música evoca esta personagem em referência a um tempo em que as coisas eram mais simples e bonitas e foi escolhida propositalmente para fechar o álbum devido à sua carga política. A sonoridade também retorna ao começo, fortemente influenciada pela Bossa Nova, mas sem perder o tom groovado que só o Azymuth poderia fazer. O destaque instrumental fica para o sintetizador no final da música, que traz um sentimento que não tem nome, mas evoca nostalgia e melancolia ao ouvinte, como que já prevendo o próximo álbum de Marcos, “Marcos Valle 1974”, que é fortemente marcado por uma melancolia profunda. 

Em suma, “Previsão do Tempo” é uma pérola da música brasileira, a melhor porta de entrada para a extensa discografia de Marcos Valle e um dos melhores álbuns da história deste país. Com músicas com grooves monstruosos o Azymuth se consolida aqui como uma banda de qualidade altíssima. Este álbum é obrigatório para qualquer amante da música nacional.


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Sobre Vitor Morais

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"Sou amante de rock progressivo e MPB mas gosto muito de outros gêneros com o krautrock, jazz, fusion, eletrônico, etc. Comecei a ouvir música e colecionar discos aos 13 anos e não parei desde então."

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Sobre o álbum

Previsão Do Tempo

Álbum disponível na discografia de: Marcos Valle

Ano: 1973

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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