Resenha

Volume Two

Álbum de The Soft Machine

1969

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

15/04/2020



Volume Two representa brilhantemente os primeiros passos da Canterbury Scene

O segundo disco da Soft Machine é o acompanhamento lógico do primeiro disco. O que o ouvinte encontra aqui é o mesmo tipo de atmosfera, mais uma vez com toques jazzísticos psicodélicos, letras tolas e engraçadas, experimentos musicais selvagens, mas também se nota algumas mudanças visíveis dando os primeiros sinais sobre a direção musical que a banda iria seguir no futuro. Esse disco foi lançado em 1969, ou seja, no final da era psicodélica, no momento em que a música progressiva se tornaria mais “séria” através de, por exemplo, suítes e concertos mais bem estruturados. 

Uma das mudanças em relação ao primeiro disco foi humana e que de alguma forma mudaria um pouco o som da banda. O amigo e roadie de longa data, Hugh Hopper – que já havia tocado em uma faixa no disco anterior - assumiu as funções de baixo quando Kevin Ayers decidiu deixar a banda após uma turnê cansativa nos EUA, abrindo para Jimi Hendrix. Kevin nunca foi conhecido como um trabalhador esforçado e reconheceu que ele era um cara preguiçoso, preferindo as praias do Mediterrâneo bebendo vinho e comendo queijo cercado por uma mulher bonita a cada dia do que passar horas e horas em um estúdio tentando fazer novas músicas soarem melhor ou fazer muitos “passeios cansativos”. 

Enquanto que Kevin era apenas um baixista regular, tocando apenas ritmos necessários no primeiro disco, Hugh Hopper trouxe para a banda suas habilidades técnicas mais sólidas, além de uma maior originalidade e criatividade. Através do uso de caixa de distorção, em determinados momentos Hopper soa até mesmo mais como um guitarrista do que como um baixista. Hopper era um baixista muito inventivo e um dos primeiros a ir além da definição de baixista que as pessoas estavam acostumadas até então. O baixo tornou-se tão importante para o som que o resto dos instrumentos principais, como guitarra e teclados, se sentiram na obrigação de abrir mais espaço para que o instrumento experimentasse mais. 

Apesar de conter alguns resquícios do espirito do primeiro álbum, o som de certa forma é mais firme, mais “organizado” e disciplinado do que antes. O Irmão de Hugh Hopper, Brian, foi convidado para tocar sax soprano e tenor em algumas faixas do disco, faixas que de certa forma seriam a base musical para o futuro som da Soft Machine, começando já no próximo disco que marcaria uma grande mudança de direção após os dois primeiros álbuns da banda. 

Apesar das suas diferenças já mencionadas, Volume Two ainda está nos moldes do primeiro, já que a influência de Robert Wyatt ainda é bastante forte com suas letras néscias e acrobacias vocais. Hopper tem uma boa participação na composição, mas curiosamente, conhecendo as suas composições mais “sérias” do futuro, certamente que ele é responsável por muitas dessas faixas curtas e engraçadas, dando assim, um bom espaço para que Wyatt se divirta. 

Mas e quanto a Mike Ratledge? Qual a sua participação no disco? Bom, digamos que ele seja o cara sério da banda e é responsável pelas duas faixas mais longas do disco, “Hibou, Anemone and Bear” e “10.30 Returns to the Bedroom”, onde a gente pode ver alguns sinais de sua futura direção musical. 

Apesar de estarmos diante de um disco de trinta e três minutos, ele ainda possui dezessete faixas. Mas sempre costumo dizer que na verdade se trata de um álbum dividido em duas suítes, cada uma de um lado do vinil, inclusive vale ressaltar que cada um dos lados possui o seu próprio título, sendo o A chamado de Rivmic Melodies e o lado B chamado de Esther's Nose Job. Então ao invés de um LP de dezessete músicas vejamos um LP com duas “suítes”. 

Volume Two é um disco em que não há momentos fracos, pois até mesmo as bobagens de algumas músicas combinam perfeitamente com as partes mais experimentais, pois a musicalidade é de primeira e bastante criativa o tempo todo. Vamos dizer que esse disco é um disco “feliz”, onde todo mundo parece estar somente divertindo, ficando claro simplesmente olhando os nomes das músicas. Volume Two é uma boa aventura musical da saga da Soft Machine e que torna essa banda absolutamente única. Eles tinham uma singularidade em seu som, o ouvinte sabe quando é o Ratledge quem toca o órgão, pois ele é o único com esse som específico e o mesmo vale para o baixo de Hopper e a bateria de Wyatt, além, claro, sabermos sobre a particularidade da voz do baterista. 

O que o ouvinte vai encontrar em Volume Two é uma viagem musical memorável que não pode ser comparado com mais nada, uma maravilhosa viagem interrupta e alegre – embora curta – do tipo que torna o mundo do progressivo algo tão único. Esse disco é do tipo que jamais deve ser esquecido, pois é um dos principais pilares criativos da música progressiva. 

Como eu comecei falando na resenha, reafirmo, Volume Two foi à evolução lógica em relação ao disco de estreia da banda. Ao invés de simplesmente lançar o modelo psicodélico pop inclinado que havia começado antes do primeiro álbum e ainda utilizado na estreia, a banda manteve isso como modelo e simplesmente expandiu as tendências de uma música de vanguarda e do jazz-fusion desenvolvidos em sua estreia. O resultado é outro álbum soberbamente excelente, que é curto, mas doce. O fator jazz é aumentado em alguns pontos, mas o fluxo subjacente do álbum permanece comparável ao da estreia. Se você conhece um pouco que seja da Soft Machine, deve saber que ela não se trata de uma banda que revela seus segredos facilmente, é preciso ouvir atentamente para deixar a mágica se desdobrar em seu próprio tempo. Para mim, pessoalmente, acho isso um excelente sucessor da estreia e uma ponte lógica entre a estreia e os desenvolvimentos ainda mais infundidos pelo jazz de Third. Volume Two representa brilhantemente os primeiros passos da Canterbury Scene.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Volume Two

Álbum disponível na discografia de: The Soft Machine

Ano: 1969

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,25 - 4 votos

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