Resenha

Discipline

Álbum de King Crimson

1981

CD/LP

Por: Marcel Dio

Colaborador Sênior

13/04/2020



Um álbum desafiante

Eis uma banda que se ama ou odeia. Bom ... pode ser que se encontre quem fique indiferente ao King Crimson, creio que são poucos.
A essa altura do jogo nem dá pra dizer que eles são uma banda progressiva no termo conhecido, a progressão é não ter rótulos para o anti herói Robert Fripp. Sempre sentado em seu banquinho a fazer frases de guitarra que beiram o fora do convencional, diria que assim como Allan Holdsworth, é um ser iluminado nesse quesito. 

Nesse disco temos a segunda reencarnação do grupo, com revezamento pesado dos músicos no passeio discográfico, não disse que o trato com o líder era fácil, e sim que ele não gostava de holofotes. 
Discipline deixou para trás a questão do rock, deixou para trás a megalomania dos anos 70 e partiu para algo mais estranho ainda, adicionando a modernidade da música eletrônica e new wave, em melodias que requerem tempo de assimilação.
Nessa aventura Adrian Belew foi o escudeiro que Fripp necessitava, um cara despojado e tão exótico quanto seu patrão na forma de tocar, alem de cantar de maneira razoável. 
Outro alienígena capturado foi o tal de Tony Levin, um pesquisador nato de novos timbres e invenções malucas como o *Funk Fingers,  também escalando o maravilhoso timbre do **Chapman Stick.
O remanescente Bill Bruford enfiou-se de vez na bateria eletrônica e sofisticou seus kits, sua capacidade técnica e som peculiar de caixa, dispensam maiores comentários.

Faixas :

As notas "circulares" de Elephant Talk simplesmente dão um nó na cabeça até de quem está acostumado com as loucuras de Frank Zappa. É inusitado, excêntrico e divertido. Robert mantem o ritmo esquisito, Belew somente pontua com acordes esparsos e Levin constrói o pilar principal com notas complexas no Chapman, usando as aplicações que o instrumento via de regra pede, o tapping. 

Elephant Talk tem uma letra tão maluca quanto o instrumental, num jogo de palavras a seguir a escala do abecedário - com cada estrofe explorando uma letra. 

A esquisitice continua em Frame by Frame, na primeira parte com as mesmas frases circulando em mudanças de tonalidade. Na segunda parte a enfase fica com os vocais. E nesse zig zag segue até o fim. 

Matte Kudasai muda os padrões e a cadencia, numa das baladas mais interessantes feitas pelo King Crimson. Suas guitarras são algo de outro mundo, batem no fundo da alma.
A versão original de Matte Kudasai trazia uma parte de guitarra de Robert Fripp que foi removida, e diga-se de passagem foi a escolha certa, pois não se encaixa de forma natural como na versão que conhecemos. A versão alternativa só interessa a título de curiosidade.

Dando sentido ao nome, Indiscipline é uma quebradeira a lá Mahavishnu Orchestra, dando a estampa de virtuosismo forçado.
Como se cada instrumento produzisse um som totalmente desconexo dentro da harmonia geral, imaginem a dificuldade de tocar ao vivo algo nesse padrão?.

Assim como Indiscipline, a subversão encontra mais lógica na enigmática Thela Hun Ginjeet, cujo o contrabaixo é um prato cheio para entender a importância de Levin nessa empreitada da trilogia das cores.
A letra nasceu em decorrência de um fato curioso, enquanto Adrian Belew passeava pela Notting Hill Gate em Londres com um gravador buscando inspiração, quando foi surpreendido por uma gangue e, depois, pela polícia. Ao voltar para o estúdio, ele contou de forma descontraída aos seus colegas de banda o que acabara de lhe acontecer. Sua fala foi gravada, e a gravação foi usada na versão de Thela Hun Ginjeet no Discipline, no lugar da gravação de Fripp.

Em Sheltering Sky eu posso parafrasear o antigo comercial de cigarros e dizer : - "Bem vindo ao mundo de King Crimson". Esse som separa os escolhidos, pois é surreal ouvir as notas de guitarra ecoando no cérebro. O que ele usa, escala árabe em slow motion?, é ... realmente não sei, meu nível musical está anos luz de tudo isso. 
Lembrando que Bill Bruford abandona a bateria e fica somente na tabla, dando toques de sofisticação a peça. 

A faixa título fecha o disco numa seção rítmica complexa ao extremo, tão vanguarda que até hoje não ouvi algo similar. Na verdade ela segue o contexto da caótica Indiscipline, e chega a apoquentar os ouvidos com as guitarras numa espécie de briga de gato e rato.

Em resumo, Discipline foi o alvo certo para os exploradores musicais, é a etapa inicial e mais ousada da trilogia da cores, concluída com Beat - que soa mais linear e normal, seguido de Three of a Perfect Pair -  uma tentativa falha de resgatar Discipline, a exceção da fantástica Sleepless.
Guardo com carinho minha gravação em dvd para "Live in Japan", um show em que eles estão em perfeita harmonia e cabe como guia para entender essa nova identidade do KC.

*Funk Fingers - (duas baquetas) uma presa no dedo indicador e a outra no anelar por um velcro, dando um efeito percussivo similar a técnica de Slap. O baixista usou o recurso em seu trabalho com Peter Gabriel e também no segundo disco do projeto Bozzio/Levin/Steven, o imperdível Situation Dangerous (2000).
**Instrumento musical elétrico criado pelo luthier californiano Emmett Chapman no início dos anos 1970. Especie de Contrabaixo de dez ou mais cordas tocado sob forma de tapping.


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Sobre o álbum

Discipline

Álbum disponível na discografia de: King Crimson

Ano: 1981

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,67 - 9 votos

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