Resenha

Big Love

Álbum de Simply Red

2015

CD/LP

Por: Roberto Rillo Bíscaro

Colaborador Top Notch

07/04/2020



Confortável como um sapato velho

Há décadas, diversos ingleses branquelos gostariam de ser negros estadunidenses. No altamente categorizado mundo pop não poderia faltar sub-gênero com essa característica, o blue-eyed soul, que não incorpora apenas britânicos, mas tem diversos representantes da ilha que adoro. Surgido nos 60’s pra enquadrar artistas brancos, como Dusty Springfield e Tom Jones, o blue-eyed soul teve grandes momentos/nomes nos anos 80.

Em 1985, destoando da lugubridade associada à Manchester pós-punk dos Smiths e da Joy Division, o Simply Red lançou Picture Book, gerador de diversos hits, dentre eles a arrasante Holding Back the Years. Era o início de uma carreira vendedora de dezenas de milhões de álbuns e receptora de inúmeras farpas da crítica, à medida que o ruivo (Red) Mick Hucknall ficava mais e mais mainstream. 

Em 2010, o Simply Red deixou de existir com esse nome e assim ficou por cinco anos, até que em 2015 saiu Big Love, lançado pra celebrar o trigésimo aniversário da banda. Ou melhor, da marca. Simply Red sempre foi nome falsamente coletivo: Vermelho é o apelido de Hucknall, o grupo é simplesmente ele mandando em músicos contratados. 

A dúzia de canções pesca elementos dos anos 70, especialmente disco music, (Philly) soul e easy listening, e foi feita pra agradar a cidadãos de meia-idade que assistiram à gênese do Simply Red. Daydreaming nasceu de Marvin Gaye, fase What’s Going On; a faixa-título mescla Phily soul com Burt Bacharach; a fugaz introdução glamorosa de The Ghost of Love estaria confortável em algum álbum do setentista Odissey; Tight Tones é James Brown totalmente domesticado; WORU abunda em arranjo de cordas disco, ecoando boa parte do álbum. A coisa mais moderna é Shine On, meio soul dance anos 90 e a mais antiga é o jazzinho de The Old Man and the Beer. Tudo muito simpático e agradável.
Alguns dos astros oitentistas – hoje 50tões – mudaram o tema de algumas letras. Em seu álbum de 2010, a ex-Everything But the Girl cantava sobre a diferença hormonal dela e da filha adolescente. Hucknall dedica menos tempo ao sexo agora. OK que em Love Gave Me More tem uma moça suspirando “give me more”, mas o Simply Red 2015 homenageia o pai falecido e fala de renovar laços matrimoniais. 

Quem foi adolescente/jovem nos 80’s/90’s, Big Love terá tocados todos seus pontos G ainda em funcionamento. Para quem é posterior, seria sacanagem recomendar o trabalho de um cantor cuja voz já está meio degradada e liquidifica tanta influência e música sublimes que deveria ser conhecida. 

Para os mais jovens, compensa muito mais uma coletânea do Simply Red e, mais importante, Marvin Gaye, Barry White, Burt Bacharach e coletâneas de disco music e Philly soul. Daí você pode até ouvir Big Love, mas, sacando de onde saiu cada charmoso acorde.


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Sobre Roberto Rillo Bíscaro

Nível: Colaborador Top Notch

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Sobre o álbum

Big Love

Álbum disponível na discografia de: Simply Red

Ano: 2015

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4 - 2 votos

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