Resenha

Birds Of Passage

Álbum de Karfagen

2020

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

04/04/2020



Rock progressivo sinfônico dinâmico e instrumentalmente bem direcionado

Desde que idealizou o projeto lá em 1997, e quase dez anos depois, em 2006, Karfagen passou a ser um dos nomes mais prolíficos da cena progressiva atual, tendo inclusive lançado um disco por ano desde 2013, onde a última parada é o excelente Birds of Passage de 2020. 

O disco consiste em um único conjunto que leva o nome do álbum e está dividido em duas partes, cada um com mais de vinte e um minutos, onde essas longas suítes são divididas em subseções, seguindo a mesma linha do que aconteceu em Echoes From Within Dragon Island, disco anterior e que apresenta um rock progressivo sinfônico complexo e muitas texturas agradáveis entre as seções vocais e instrumentais, além de sonoridades e instrumentações folclóricas e que flui maravilhosamente bem. Cada instrumento é nítido e polido, com muitas interações de teclado e guitarra com bons vocais que se utilizam do canto e da harmonização entre vozes masculinas e femininas.

A poesia de Wadsworth Longfellow na parte 1 e William Blake na parte 2 foram usadas nas suítes, sendo assim, elas compõe a maior parte do conteúdo lírico encontrado nelas, sendo complementadas por letras do próprio Anthony. Uma das coisas mais impressionantes do Karfagen é como as palavras são tão bem colocadas e executadas nas músicas e ver como uma poesia pode ser tão maravilhosamente integrada em uma suíte. Vale ressaltar que a primeira suíte é bem mais lírica do que a segundo que se concentra mais em seções instrumentais mais longas. 

“Birds Of Passage (Part 1)” e suas cinco partes bem encadeadas é por onde o disco tem início. Não adianta querer perceber onde uma parte acaba ou começa, tudo flui com uma naturalidade que quando menos esperar terão passado os vinte e dois minutos. Logo se percebe que serão usadas mais vozes do que no disco anterior, assim como mais momentos únicos de sintetizadores e mais guitarra rítmica do que solo. Essa música é alegre, divertida, melódica e de certa forma, às vezes meio repetitiva, porém, isso não compromete. Uma suíte bonita, complexa e por vezes quase exagerada, mas é outra coisa que também não compromete. Entre alguns toques na música nota-se Moody Blues, Transatlantic, Flower Kings, Camel, além de folk, linha medieval e vintage, enfim, um verdadeiro caldeirão, mas a mistura é muito bem feita e em doses certas de cada um. Vale uma menção também ao tema tocado durante pouco mais da metade da música e que é o mesmo encontrado em “Dragon Island Suite 1”, primeira faixa do disco anterior, o que nos faz questionar se existe ligação entre os discos.  

“Birds Of Passage (Part 2)” possui uma entrada meio bucólica, faz lembrar um pouco de “Horizons” do Genesis, mas conforme o violão vai deslizando na música, também vem o Steve Howe em mente. Então que após uma longa introdução ao violão e que vai ganhando a companhia de piano e outros instrumentos, acontece uma grande explosão de notas sinfônicas. Há momentos com coro incisivo intercalado com solos de sintetizadores e guitarras. Por vezes apresenta umas linhas mais pesadas, em outro momento passagens jazzísticas e linhas um pouco mais atmosféricas que de certa forma remete ao som feito pelo Brian Eno. Uma influência na música do King Crimson também passeia por esse épico. Entre tantas viagens e territórios visitados a música se encerra através de um longo e etéreo final. 

Não tem como sair da máxima em afirmar que a grande suíte é o que mais faz esse disco valer a pena, mas há ainda mais três excelentes faixas e que são todas elas apresentadas como faixas bônus. “Spring (Birds Delight)” é uma música mais curta e que também tem suas letras inspiradas em um poema de Blake. Cativante, com algumas dispersões que parecem meio tribais e que se mistura muito bem com as já comuns influencias da banda, além de percussões e vozes bem direcionadas. “Sunrise” é uma faixa instrumental agradável, pastoral e pacífica, apresentando uma flauta adorável e apoiada por sintetizadores atmosféricos e percussão. Uma faixa do tipo para descansar e relaxar enquanto ela massageia a sua alma. “Birds (Short Introduction)” é uma faixa disponível apenas na versão digital do álbum, uma pequena faixa instrumental que parece querer levar o ouvinte de volta para o começo do disco, parecendo ser uma – e como o seu nome sugere - introdução, mas logo chega ao fim. 

Birds of Passage apenas comprova o que é notório há alguns anos, ou seja, o nome Karfagen sem dúvida alguma tem que figurar no panteão do rock progressivo contemporâneo. Mais um disco em que a banda trabalha com os seus pontos fortes e as incríveis habilidades composicionais de Anthony. De certa forma, sinto nesse disco algo como uma continuação de Echoes From Within Dragon Island, ainda que seja um pouco inferior, apesar de também deslumbrante. No fim das contas, estamos diante de um rock progressivo sinfônico dinâmico e instrumentalmente bem direcionado.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Birds Of Passage

Álbum disponível na discografia de: Karfagen

Ano: 2020

Tipo: CD/LP

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