Resenha

Refugee

Álbum de Refugee

1974

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

29/03/2020



Juntos por pouco tempo, mas ainda assim gravaram uma obra-prima atemporal

Acho que todos concordamos que chegar em uma banda como músico substituto não é uma tarefa das mais fáceis, ainda mais quando o lugar desocupado era o posto de um verdadeiro ícone em outrora, é preciso lutar com todos, fãs, críticos que sempre o compararão ao membro anterior e até mesmo com a própria banda que ele vai integrar, quando alguns membros levam tempo para aceitar o novo. Agora imaginem que esse novo músico sequer é uma figura carismática e precisa substituir músicos do calibre de Keith Emerson, Rick Wakeman e Mike Pinder, certamente acreditar em um sucesso seria até inocência. Mas acontece que o tecladista suíço Patrick Moraz, em algum momento da carreira teve que substituir um dos três citados e através de sua técnica impecável obteve sucesso artístico em todas as ocasiões. 

No caso do álbum homônimo do Refugee, ele teve que preencher a lacuna deixada por Keith Emerson, inclusive, uma lacuna enorme tendo em vista que para a maioria das pessoas The Nice era uma banda formada por Emerson e mais dois caras que poderiam ser qualquer um. Mas Moraz não apenas substituiu Emerson, como também imprimiu um som novo e único, baseado mais em piano do que em moog, além de ter um estilo menos egocêntrico e megalômano de que Keith Emerson, fazendo com que abrisse um espaço maior para que Jackson e Davidson provassem que não eram apenas companheiros, ou banda de apoio, mas músicos com grandes capacidades. 

“Papillon” é a faixa que abre o disco já mostrando uma sonoridade nova bem evidente. No piano nota-se uma abordagem mais barroca do que uma linha agressiva como as que são a marca de Emerson. Na introdução já é possível perceber que Brian Davidson apresenta uma confiança muito maior, porque o uso das teclas é menos exclusivo, permitindo assim que o baterista mostre o seu excelente timing e velocidade. É óbvio que ele toca algo mais próximo do estilo de Rick Wakeman do que Emerson, mas nessa música ele combina as habilidades do segundo no órgão, com uma incrível velocidade no piano muito característica no primeiro. As linhas de baixo de Lee também merece menção, pois são bastante fortes e evidentes. 

“Someday” possui uma grande melodia e um bom poço sinfônico. A bateria em ritmo sincronizado com o teclado define a música nos seus primeiros segundos. Em seguida Jackson entra com o seu vocal que eu acho bastante peculiar. Novamente, apesar de Moraz com seus exímios trabalhos de piano e sintetizadores ficar em evidência, baixo e bateria também se mostram bastante criativos e não ficam apenas na sombra do tecladista. 

“Grand Canyon” é um épico de quase dezessete minutos. Depois de uma introdução de cerca de quatro minutos, os três músicos combinam suas habilidades para recriar a introdução, mas de maneira cada vez mais profunda e dramática. Eu adoro o baixo, simplesmente impecável, sombrio, misterioso e 100% pomposo. Após um solo de piano bastante triste de Moraz, Jackson entra com os seus vocais, que aqui de alguma forma soa como uma espécie de ponto intermediário entre Greg Lake e Pete Townshend. Enquanto isso a bateria vai se juntando à música de uma maneira crescente que lava a outro intervalo instrumental de teclado, baixo e bateria que conduz o ouvinte a uma seção espacial que novamente muda radicalmente em uma passagem agressiva típica das encontradas em música da The Nice, soando como uma espécie de cacofonia controlada. As mudanças de andamento dessa faixa mostra o quanto versáteis eles podem ser.

“Ritt Mickley” mais uma peça instrumental. Bastante peculiar, por vezes soa quase como um funk. No seu núcleo tem um tema clássico e órgão, mas em sua maioria é dominada por sons maciços de sintetizadores. Por algum motivo me parece um tipo de som que o Gentle Giant também faria. Eu acho essa música extremamente consistente com teclados bem desenvolvidos sobre uma cozinha sólida.

“Credo” finaliza o disco mantendo o mesmo nível incrível apresentado nas demais. Começa com um solo de piano de cauda. A música vai se construindo de maneira esplêndida com piano e teclado avançando com seus elementos clássicos e aumentando cada vez mais a tensão. Após os primeiros vocais e uma forte instrumental, a música fica com apenas um órgão de igreja de fundo e vocal, evocando um clima litúrgico carregado de paixão e urgência em uma melodia de hinário impressionante. Os vocais soam como se estivesse sendo asfixiado – algo que eu adoro – e isso dá uma grande emoção pra faixa. Não vou fingir que sei do que se trata a letra, pois nunca parei pra ver, mas a essência parece ser a rejeição de Jackson ao estrito dogma de sua educação católica sendo suplantada por sua própria experiência aprendida do mundo. A passagem instrumental no final da música é brilhantemente bem arranjada, com muitas mudanças e desvios de andamentos. Estava à um tempo sem ouvir esse som e agora ao termina-lo pela segunda vez admito que fiquei até mesmo sem fôlego. 

Ao acabar de ouvir esse disco percebemos algo em comum, todas as músicas pulam do sinfônico clássico para um fusion elaborado, passando por seções psicodélicas e incursões de hard rock. Tanto Brian Davison quanto Lee Jackson parecem mais confortáveis e livres para tocar, sem a pressão de ter Keith Emerson com eles e assim criar ao lado de Moraz um disco mais versátil. Apesar de Moraz ter se juntado ao Yes pra gravar o incrível Relayer, eu lamento que ele tenha largado o grupo, pois consigo imaginar essa banda lançando muitas outras pérolas como essa. Tocaram juntos por pouco tempo, mas ainda assim gravaram uma obra-prima atemporal.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Refugee

Álbum disponível na discografia de: Refugee

Ano: 1974

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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