Resenha

Holy Land

Álbum de Angra

1996

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

23/03/2020



Um dos discos mais inovadores da história do metal

Desde que ouvi Angra pela primeira vez até hoje já se passaram mais de 20 anos, mas admito até com certo constrangimento que somente alguns anos depois do meu primeiro contato com a banda que eu de fato a apreciei como de deveria, sabem por quê? Já fui do grupo de pessoas com síndrome de vira lata e não confiava em determinados estilos musicais sendo feito no Brasil. Mas ainda bem que com o tempo esse tipo de pensamento completamente retrógrado desapareceu da minha cabeça e hoje o Angra na minha vida tem uma grande importância. 

Acho que uma pessoa não pode chegar e falar por todos que determinado disco é o melhor de uma banda, afinal, isso é algo bastante pessoal, mas quando o assunto é o mais influente e impactante, isso foge um pouco de uma escolha pessoal, e em se tratando de Angra e inegável que Holy Land é o disco que carrega esse posto. 

Se no disco de estreia, Angels Cry, a banda fez um excelente som orientado pelo heavy metal tradicional, em Holy Land, acrescentaram elementos da música brasileira e usaram de estruturas musicais mais complexas e construíram um dos discos de metal mais singulares já feitos. Não sei exatamente como a comunidade dos fãs de heavy metal de fora do Brasil recebeu esse disco na época, talvez alguns a tenham achado estranho por não estarem acostumado com essa mistura, mas real é que hoje dentro e fora do país Holy Land é visto como uma obra extremamente criativa e bonita. 

“Crossing” é uma introdução de pouco menos de dois minutos, alguns cantos de pássaros, coral e mais para o final tem um barulho de chuva e trovões.

“Nothing to Say” é a faixa que de fato abre os trabalhos em Holy Land. Começa com bateria e baixo e aos poucos vai ganhando uma orquestração muito boa, então que sofre uma breve pausa e é acrescentada as guitarras antes da voz de Andre Matos vir à tona, inclusive ele já mostra o quão poderoso será o trabalho vocal nesse disco. “Nothing to Say” é um power metal com melodias cativante, excelentes riffs de guitarra e frequentes mudanças de andamento. Os solos de guitarra são impressionantes, principalmente quando combinado com a ótima orquestração. Não por menos se tornou um dos maiores clássicos da banda e presença certa em praticamente todos os concertos do grupo. 

“Silence and Distance” começa com uma linha vocal suave acompanhada por piano. Ao fundo uma orquestração também começa a dar à música uma iluminação de forma enriquecedora. Todos os demais instrumentos entram na música e os vocais agora fazem algumas notas altas em ritmo médio. Em alguns segmentos há uma excelente combinação de teclado, riffs de guitarra e orquestra. O final é de piano e voz mais ou menos como na abertura. Adoro essa música. 

“Carolina IV” é sem dúvida uma das minhas maiores paixões quando o assunto é músicas do Angra. Começa com um batuque que acentua bem a influência na música brasileira. Os primeiros vocais do André são acompanhados por um coro ao fundo, flautas também valorizam os trabalhos de guitarras, baixo e bateria. A primeira transformação da música acontece quando a sua cadencia passa a ser ao estilo speed metal clássico e com altas notas na linha vocal. O trabalho orquestral desempenha um papel de muita importância para acentuar a música. No decorrer dos seus mais de 10 minutos, a música oferece vários estilos e formas com mudanças frequentes de andamento. Não apenas pelo seu tamanho, mas eu qualifico essa música como a mais progressiva já composta pela banda. 

“Holy Land” começa com o piano fazendo uma linha que lembra os toques usados em rodas de capoeira, então que a voz do André entra e a linha instrumental também passa a ter flauta e uma suave percussão. A música então flui em um ritmo médio, agora com todos os demais instrumentos, com o vocal sendo cantado mais alto e acentuado com som da flauta. O piano se mantém em um tom alegre durante toda a música. Em termos de melodia esse é o tipo de som que não sei se consegue cair nas graças de um amante de metal lá de fora, mas falando por mim, foi paixão logo de cara, como tudo que tem nesse disco. A parte final eu acho sensacional, um som que lembra a um oboé sobre uma seção rítmica de atmosfera bastante alegre. 

“The Shaman” muito provavelmente tenha inspirado o André para nomear a sua futura banda. Começa maravilhosamente com uma ótima orquestração seguida de vocais com notas altas gravadas em cima de riffs excelentes. A orquestração ajuda como sempre a acentuar as texturas da música. Possui um interlúdio muito bom, algumas vozes dialogando em um idioma que não sei qual é, teclado criando uma ótima atmosfera e percussão marcando o tempo até que a música regressa de forma mais enérgica, com um solo de guitarra que é valorizado mais ainda pela orquestração ao fundo. 

“Make Believe” começa com uma bateria muito bem combinada com piano. O vocal entra em um ritmo lento, enquanto que bateria e piano mantem o seu ritmo. A música vai ficando mais alta conforme os vocais se tornam mais intensos, onde o ápice fica nos refrãos e na parte final em que André mostra porque pode ser considerado um dos melhores vocalistas da história do metal. Essa música é uma semi balada que flui extremamente bem do começo ao fim. Mais uma vez vale mencionar também o trabalho de orquestração. 

“Z.I.T.O” é uma música incrível e que a banda tocou poucas vezes ao vivo depois da turnê do álbum. É um power metal clássico, bastante rápido e técnico, com bastante orquestra e vocais excelentes. Possui uma grande parte de interlúdio e que há uma exploração de piano, orquestração seguida por um solo de guitarra impressionante. Essa música possui uma seção rítmica incrível, solo veloz de guitarra, tudo executado em excelente harmonia. Uma das minhas preferidas. 

“Deep Blue” começa com um som de órgão envolvente. Os vocais do André aqui se mostram bastante polivalentes, onde tanto nos momentos suaves como em notas altas são bastante precisos. Excelente também é o trabalho de piano, assim como o solo emocional de guitarra. Uma balada de melodia cativante. 

“Lullaby For Lucifer” é a música que finaliza o disco. Começa com uma paisagem sonora da praia, seguida de belos preenchimentos de violão. André canta de maneira belíssima nessa faixa. Essa música curta encerra o disco de maneira serena. 

Holy Land não é apenas um disco de metal, power metal, prog metal, enfim, independente do rótulo imposto a sua música, ele também é uma epopeia sobre a história e a cultura brasileira com toques visíveis de sua música folclórica. Em meio ao peso tradicional da música da banda, encontramos com instrumentos, batidas e ritmos brasileiros. Um dos discos mais inovadores da história do metal.


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Sobre Tiago Meneses

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Holy Land

Álbum disponível na discografia de: Angra

Ano: 1996

Tipo: CD/LP

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