Resenha

Never Say Die!

Álbum de Black Sabbath

1978

CD/LP

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

22/03/2020



O adeus de Ozzy e o fim de uma era

Nunca um verdadeiro fã do Black Sabbath vai considerar “Never Say Die” como um ótimo álbum. Pudera, a sonoridade apresentada aqui é muito diferente do que se espera do quarteto que ajudou a criar o heavy metal.

Porém, é exagero dizer que o oitavo álbum de estúdio dos ingleses é ruim. O trabalho possui bons momentos e de um modo geral reflete o caos que havia se instalado no devido a incessantes turnês e gravações, além do abuso com álcool e drogas, que levou a saída do vocalista Ozzy Osbourne após o final da turnê de “Technical Ecstasy”.

Dave Walker (desconhecido vocalista do Savoy Brown), ficou com a vaga e acabou se apresentando com o grupo em um programa musical da BBC. Ozzy viu a apresentação, e desolado com a morte do pai pediu pra voltar ao grupo, tendo sido prontamente atendido.

Ocorre que o grupo estava um caos, Ozzy não queria cantar as canções feitas para Walker e segundo Iommy, ninguém do grupo tinha vontade ou vigor criativo para criar algo novo. A solução foi improvisar, rearranjar ou reescrever canções que já haviam sido compostas pro disco ou algumas mais antigas, uma vez que os músicos entrariam no Sounds Interchange Studios em Toronto no Canadá apenas 3 dias depois.

Outro erro foi o próprio grupo produzir o trabalho. Uma banda exausta e esfacelada precisava de um produtor para uni-los, ao invés disso o quarteto tomou as rédeas de produção.

Porém nem tudo foi perdido, a adesão de elementos mais proeminentes de blues, jazz e progressivo somaram muito a sonoridade do grupo, o problema foi não saber dosar tais elementos.

A abertura com a faixa título engana o ouvinte. Parece que o grupo havia voltado ao básico, com canções pesadas e simples. Um começo digno e intenso;

Mas a faixa seguinte, “Johnny Blade” tem um prelúdio de teclados feito por Don Airey, que colabora em todo o disco.  Os Riffs de Iommy aparecem em seguida, assim como a voz característica de Ozzy, mas o clima futurista característico de bandas progressivas continua. O baixo dobrado de Geezer da um peso extra no tema;

“Junior Eyes”, tem um andamento meio progressivo meio pop, um contrabaixo sombrio ponteando o inicio da canção até a entrada da guitarra. Essa música foi a primeira adaptada após a “volta” de Ozzy. Geezer escreveu a letra para homenagear o pai do vocalista recém falecido;

O peso retorna com “A Hard Road”, com um bom riff de Iommy tocando ‘em cima” da bateria de Ward, que continua pesada. O quarteto encerra o lado A do antigo vinil com ótimos temas não deixando até aqui, transparecer a situação caótica em que o grupo se encontrava. Mas o disco traria ainda mais surpresas;

Iniciando o lado B temos “Shock Wave”, que possui um bom riff, mas vocais e coros que destoam um pouco do estilo do grupo;

E então vem “Air Dance”, em minha opinião uma das mais técnicas, bonitas e bem estruturadas canções do grupo, com o piano de Airey costurando toda a canção. Mas, obviamente nenhum ouvinte do Sabbath quer escutar um piano jazzístico à frente da canção, por melhor que ela seja e muito menos Iommy empunhando um violão;

“Over to You” tem os mesmos parâmetros estruturais da canção anterior, ou seja: o órgão a frente da canção e pianos por todo o tema. Seriam grandes canções para bandas mais progressivas, mas não para os fãs Black Sabbath;

A faixa Seguinte “Breakout” é instrumental, e segundo Iommy, não porque o vocalista se recusasse a canta-la, mas pelo fato de ninguém na banda saber o quer escrever no momento. Resolveram deixa-la sem vocais e chamaram um saxofonista para preencher alguns pontos;

Encerrando o álbum tem “Swinging the Chain”. Essa Ozzy realmente se recusou a canta-la. Porém o grupo não possuía mais material suficiente e precisavam grava-la. Foi quando Bill Ward disse: “Deixa que gravo os vocais” e assim foi. Obviamente a canção em nada lembra o grupo, ainda mais pela adesão da gaita tocada por John Elstar.

Musicalmente “Never Say Die” possui boas canções, mas lhe falta uma identidade. As musicas não se relacionam, conforme o próprio Tony Iommy confessou em sua biografia posteriormente. Foi um disco de retalhos, com o grupo pegando temas ainda não utilizados e adicionando elementos diversos da sonoridade já consagrada.

Ainda assim, recomendo uma audição livre de qualquer preconceito, pois há temas que mostram o lado mais técnico e inventivo do quarteto.

O álbum foi lançado em setembro de 1978 e a faixa titulo lançada como single bem antes conquistou 21º lugar nas paradas inglesas, e o álbum 12ª posição. Porém os experimentos com jazz e outras sonoridades foram demais para Ozzy que desta vez deixa o grupo pra valer. “Never Say Die” marca o fim da formação clássica do grupo, que só voltaria se reunir em estúdio 30 anos depois.


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Sobre o álbum

Never Say Die!

Álbum disponível na discografia de: Black Sabbath

Ano: 1978

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,11 - 14 votos

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