Resenha

I Me Myself

Álbum de Anima Mundi

2016

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

18/03/2020



Composições perfeitas, arranjos complexos e ótimas musicalidades

Que Cuba é um país impensável quando vamos falar de bandas de rock progressivo é um fato, mas fato também é que em contrapartida foi de lá da ilha que saiu um dos melhores grupos de progressivo sinfônicos dos últimos tempos.  A banda possui uma sonoridade que é uma verdadeira aventura sinfônica e canções épicas. I Me Myself é um álbum conceitual sobre a relação entre o ser humano e a tecnologia. Como de costume a atmosfera do álbum é bonita e tranquila, sendo realizada lentamente e de forma soberba principalmente pela tecladista Virginia Peraza, talvez a maior responsável pelo som característico do grupo. Boas, criativas e marcantes linhas e baixo, baterias bem desenvolvidas, guitarras com solos tocantes, bases pesadas e melódicas sempre na medida certa, tudo isso temperam o disco da melhor maneira possível. 

Ouvir os efeitos sonoros e a música nas seis faixas disponíveis mostra que estamos lidando aqui com um álbum muito especial. Não é um álbum que você apenas toca enquanto lava a louça ou faz qualquer outra atividade. Você só precisa se concentrar enquanto ouve e não deixa nada te distrair. Tudo parece bastante complexo e precisa de algumas escutadas para descobrir os detalhes dentro das composições. Os efeitos sonoros do disco também se encaixam perfeitamente em seu conceito. Foram dois anos de trabalho até que esse disco ficasse pronto. 

“The Chimney, the Wheel and the War”, no seu início você pode ouvir uma mensagem em Código Morse para obter-se uma ajuda (S.O.S), seguido por um estrondo o qual eu acho que seja pra simbolizar a queda de uma bomba atômica, terminando com a batida de um coração humano. Começa suavemente de maneira acústica e ambientada por um teclado em tom sombrio. Os vocais dramáticos também sinalizam que estamos diante de uma faixa bastante forte. A música então a partir de alguns toques de bumbo começa a crescer bastante e após permanece extremamente sinfônica e enérgica, silencia. A faixa então entra em um interlúdio aonde principalmente Virginia Peraza o conduz com a maestria de simples. Um piano simples e bem escolhido, linhas atmosféricas de fundo e bateria em ritmo de uma sutil marcha militar. Os vocais enfim retornam, enquanto que todos os músicos parecem estar se alinhando pra entrarem todos juntos em uma instrumentação, mas sem perder a característica sinfônica, até mesmo um saxofone aparece e se junta a eles, então que a bateria em batidas mais rápidas guia a faixa pra outra pegada, um solo de órgão muito bom é executado, seguido por um de guitarra igualmente forte e bem condizente com a atmosfera da música. Retornando ao seu ritmo mais lento a música caminha para o fim em ar meio taciturno. 

“Somewhere”, mostra que se o disco abriu de maneira mais aprazível, aqui as coisas já se iniciam com a banda chutando a porta. Um começo sinfônico e cheio de peso, baixo pulsante, bateria cheia de vigor, guitarra rasgada revezando a linha de frente com potentes doses de sintetizadores. A temperatura abaixa e a faixa entra em uma linha mais serena, quando também entram os primeiros vocais. Demais instrumentos se reagrupam, mas agora em batidas mais leves, o clima criado pelas pinceladas de guitarra e teclados são ótimos. Essa música começa maravilhosamente bem, mas pode dar a impressão que ao cair em um clima mais ameno, não vai conseguir manter-se tão interessante, porém, todas as suas nuances são ótimas e ela vale a pena em sua totalidade. 

“Flowes” é mais uma faixa em que o peso é escolhido pra que a obra se inicie. Inicialmente com um excelente riff de guitarra e que depois ganha a companhia de um teclado quase orquestral, enquanto isso bateria e baixo sempre mantendo uma cozinha bastante densa e firme. Desta vez antes dos vocais entrarem, a banda não “silencia”, apenas diminui a intensidade da mesma batida. Essa música tem um clima bem menos sombrio e mais otimista que os encontrados na faixa anterior. Ótimos solos de guitarra e órgão também temperam muito bem a música. 

“Clockwork Heart” é a faixa mais curta do disco. Começa com o baixo nas alturas, alguns suaves riffs de guitarra em contratempo, bateria forte e um teclado sinfônico de fundo. Os vocais são muito bons enquanto a banda segue em uma linha meio jazzística. Um solo de órgão seguido por um de sintetizadores é excelente e dá uma cara bastante orquestral, por último ainda tem tempo de um solo de piano, Virginia brilha no último terço de música. 

“Train To Future”, eu lembro que quando ouvi essa faixa pela primeira vez, após ouvir rapidamente o som de um pássaro, tivesse escutado um barulho de trovão, mas na verdade é um trem passando. Enquanto isso acontece, bateria e baixo vão crescendo na música até que todos os instrumentos aparecem e juntos a música segue um ritmo bastante empolgante.  Sintetizadores assumem o papel de protagonismo e pincelam a faixa com cores escuras, mas belíssimas, é seguido por um solo de guitarra que é curto, mas ótimo para o momento. A banda segue “brincando” entre pequeno “duelo” de guitarra, baixo e teclado, mais fortes linhas de sintetizadores, riffs e solos de guitarra bem compostos e uma cozinha que sempre se mostra bastante firme e aparente. A faixa então chega em um momento que é extremamente espacial, com pianos meio mórbidos e um vocal completamente diferente daquele que estava na música até agora a pouco, aos poucos bateria e baixo também retornam à faixa até que um solo de guitarra arrepiante e com influência de Pink Floyd toma a direção da música. Após isso a música fica acústica, mas com um teclado sinfônico de fundo, até que fica apenas umas vozes conversando, o mesmo som de trem no início e a faixa chega ao fim. 

 “Lone Rider” encerra o disco de maneira lindíssima. É a balada do disco, digamos assim, mas com a mesma atmosfera das faixas anteriores. Começa com um violão e uma flauta (feita no teclado), após o vocal entrar a faixa segue com o violão, mas agora na companhia de um piano, além de uma marcação de baixo. A bateria entra de maneira leve, a linha de flauta reaparece e a música enfim se constrói como a balada que eu disse no início. O solo de violão é maravilhoso e cresce em beleza, principalmente por sempre ser amparado por ideias sublimes teclado ao fundo. Vale ressaltar também o solo de guitarra bastante inspirado. A música termina da maneira que começou, ou seja, com o dueto de violão e flauta. 

No fim o que temos aqui é um disco de composições incríveis e que nos despertam emoções diferentes durante cada uma delas. Ao lançar I Me Myself a banda entregou à comunidade de rock progressivo contemporâneo uma obra extremamente relevante.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

I Me Myself

Álbum disponível na discografia de: Anima Mundi

Ano: 2016

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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