Resenha

Resistance

Álbum de IQ

2019

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

14/03/2020



Um rock progressivo imaginativo com musicalidade exemplar

O IQ é aquela banda que a cada lançamento eu assumo estar mais apaixonado pelo seu som, impressionante como a banda consegue durante vinte anos seguir se mantendo em qualidade extrema em todos os seus discos lançados. E o mais recente, Resistance, assim como o seu antecessor, The Road of Bones, também é um disco duplo, mas também é bom frisar que ele apesar de duplo, não possui enchimentos, tudo nele soa como algo necessário. 

Em termos sonoros, sempre achei a banda até de certa forma linear, não acho que mudou muito desde The Seventh House (embora eu tenha meu disco de preferência), mas em Resistance a banda finalmente revolucionou seu estilo de composição, arranjos e produção. 

No começo da minha resenha sobre The Road of Bones aqui no site eu começo dizendo que aquele havia se tornado meu disco preferido. Mas desde que ouvi Resistance passei a querer mudar de opinião, não querendo tirar do disco anterior o posto de preferido, mas ele apenas não estará mais sozinho nessa. Resistance é uma verdadeira obra-prima. Uma sugestão que dou em relação a ele é que escutem cada uma de suas músicas várias vezes pra captar e apreciá-las como de fato deve ser. Novamente a banda demonstra que são verdadeiros mestres na construção de músicas com uma atmosfera sombria. Todos os ingredientes que eu acho necessário para se fazer um disco de rock progressivo perfeito está aqui. O IQ talvez seja a banda atualmente no rock progressivo que está mais anos em uma consistência e parece cada vez melhores. A musicalidade e a produção novamente estão perfeitas. Assim como The Road of Bones, que pra mim foi o melhor disco de 2014, Resistance foi pra quem eu dei o título de melhor disco de 2019.

CD 1:

“A Missile” começa com um som meio futurista de teclado antes que toda a banda também entre e a faixa se desenvolve em uma atmosfera pesada e sombria. De certa forma essa faixa me lembrou ao início também pesado do disco The Road of Bones com, “From The Outside In”. Peter Nicholls canta poderosamente com grande habilidade e sentimento. Destaque também para Neil Durant que tempera a música com sua classe de sempre através de sintetizadores e teclados distorcidos. 

“Rise” começa com uns acordes meio agourentos e agudos criando uma espécie de paisagem épica de ficção científica, inclusive conforme é até retratado na própria imagem da bela capa do CD. A orquestração feita pelos teclados em alguns momentos chega a soar assombrosa e arrepiante. Uma música sensacional onde as construções atmosféricas e o desenvolvimento melódico são simplesmente sublimes. 
 
“Stay Down” começa com uma simples linha de piano sob a voz triste de Nicholls. As notas do teclado e os sons de violoncelo transmitem uma música suave, mas que tem sua tensão aumentada com a entrada do dedilhado da guitarra e o som de relógios. A crescente continua até que acontece uma avalanche de teclado, baixo, bateria e guitarra. Essa música é bastante sombria, tanto musicalmente quanto liricamente. Algumas músicas aqui me dá vontade de perguntar para Pete Nicholls e Mike Holmes o que eles estavam sentido ao escrever as letras desse disco. Parece que houve uma expulsão catártica de emoções. 

“Alampadria” é a menor música do álbum, mas não menos grandiosa em termos de qualidade. Começa lindamente com uma atmosfera musical influenciada na música do Oriente Médio. A banda em seguida entra em uma sonoridade tipicamente do Neo Progressivo e bastante influenciada no Genesis. O vocal é dramático, tem um ótimo solo de guitarra igualmente dramático e um órgão de fundo que mantem a tensão flexionada até o final da faixa. 

“Shallow Bay” é um rock mais direto, digamos assim, mas com um bom toque de melancolia e que oferece ao guitarrista Michael Holmes um terreno perfeito para que ele desfile com um solo extremamente emotivo e faça dessa faixa mais uma maravilha do disco. 

"If Anything" diminui a intensidade do álbum, mostrando que a banda sabe que tanta escuridão musical às vezes precisa ser contrastada com uma luz. Possui uma guitarra espanhola muito bem tocada e os vocais de Nicholls estão encantadores. Mas na sua parte final a banda ainda nos presenteia com um órgão de igreja que deixam as coisas menos “fofas”. 

“For Another Lifetime” é o primeiro dos três épicos do disco. Começa de uma forma meio estranha através de alguns sons peculiares que evoca a sensação de uma história de fantasma, principalmente quando a sequência de abertura diminui e os vocais se distorcem, para em seguida entrar uma passagem clássica típica da banda com guitarra, baixo, bateria e teclado, lembrando um pouco até “Sacred Song” do disco Dark Matter, a tensão construída é ameaçadora. Em determinado momento o ritmo da música aumenta e ela entra em uma seção com influência de Steve Hackett. As linhas de guitarra e teclado se soltam muito bem na música e se entrelaçam perfeitamente. Os vocais de Nicholls são desempenhados com cuidado, maestria e às vezes de maneira muito emocional, enquanto que a cozinha baixo e bateria se matem sempre poderosa. Uma música onde tudo foi muito bem pensado e desenvolvido. 

CD 2:

“The Great Spirit Way” é uma música que me tocou tanto, que depois de ouvi-la algumas vezes eu a coloco facilmente entre uma das pelo menos cinco melhores músicas progressivas do século XXI. Pode ser exagero? Talvez, mas ainda assim mantenho minha palavra. É uma música bastante intensa que de certa forma, algumas maneiras de sua construção me lembra alguns aspectos do Dream Theater dos anos 90, na maneira como as vezes a guitarra se desenvolve lentamente, mas as atmosferas do teclado continuam claramente no campo do Neo Progressivo típico da banda. Os cenários criados por Durant nesta música é de uma atmosfera das mais memoráveis que já ouvi. Alguns dos ataques dramáticos no teclado também remetem a bandas clássicas dos anos 70, enfim, não tem como fechar os olhos de que o maior destaque da faixa está nos trabalhos de teclas. A faixa possui algumas mudanças bruscas de andamento que são simplesmente incríveis. Em entrevista antes do lançamento do álbum, Michael Holmes afirmou que a inspiração na sua composição para este álbum foram seus sentimentos sobre a emergência climática e a complacência em relação a essa ameaça global. A Resistencia que leva o nome do disco, parece que refere-se ao grupo “Extinction Rebellion”. Provavelmente a letra nessa faixa é onde mais ecoam essas preocupações. 

“Fire and Security” é uma música bastante linear e que tem a cara da banda. Fica difícil falar que uma música com cerca de cinco minutos e meio vai se destacar em um disco que tem dois épicos de vinte minutos, mas não deixa de fazer bonito. Começa de maneira acústica sob vos vocais suaves de Nicholls. Depois possui uma cadencia simples, mas muito enérgica. O solo de guitarra na parte final eu acho de uma beleza ímpar, principalmente pelo clima sinfônico de fundo que o valoriza mais ainda. 

“Perfect Space” é a única faixa em que nos créditos aparece sendo de Neil Durant como o compositor principal. Seus trabalhos nos teclados são notáveis nessa faixa e varia em uma introdução suave e um órgão incendiário que inclusive duela de maneira sensacional com a guitarra mais pelo núcleo da música. Mais para o final a música vai se tornando dramática com direito a um solo de guitarra muito bonito. 

“Fallout” é o épico de quase vinte minutos e que coloca fim nessa incrível jornada musical chamada Resistance. Essa música é cheia de luz e escuridão, suavidade e barulho, drama e algumas outras emoções. Uma música clássica tipicamente da banda e que nem sempre é fácil transmitir em palavras tudo o que ela passa. Possui uma introdução celestial e que aumenta gradualmente a tensão e que vai se estender até o “monstro” sair da jaula com todos os instrumentos entrando em ação. Esse épico não é daqueles que se constroem em retalhos de várias ideias, mas uma trilha que se desenrola constantemente em um tema sólido. Pra mencionar um dos tantos destaques, mais ou menos na metade da música, Tim Esau e o seu baixo fretless é simplesmente sensacional, cheio de energia. A banda com certeza quis terminar o álbum bem ao seu melhor estilo, ou seja, evocando atmosferas obscuras e quase góticas com paisagens sonoras densas. Final sensacional. 

Sem a menor dúvida que esse é daqueles álbuns que já nasceram um clássico. Mais uma vez a banda conseguiu transmitir um rock progressivo imaginativo, com musicalidade exemplar e lirismo poético. Por conta de um disco disco assim que considero o IQ um dos principais nomes da cena progressiva atual.


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.



Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaAdele - 21 (2011)

    01/07/2020

  • Image

    ResenhaO Terço - Criaturas da Noite (1974)

    13/04/2018

  • Image

    ResenhaEloy - Ocean (1977)

    14/10/2017

  • Image

    ResenhaNational Health - National Health (1977)

    16/04/2020

  • Image

    ResenhaTriana - Hijos Del Agobio (1977)

    30/03/2020

  • Image

    ResenhaMarillion - Script for a Jester's Tear (1983)

    15/03/2020

  • Image

    ResenhaGenesis - Trespass (1970)

    21/11/2017

  • Image

    ResenhaDream Theater - Awake (1994)

    03/10/2017

  • Image

    ResenhaMahavishnu Orchestra - Apocalypse (1974)

    27/05/2021

  • Image

    ResenhaEvergrey - Recreation Day (2003)

    24/02/2022

Visitar a página completa de Tiago Meneses



Sobre o álbum

Resistance

Álbum disponível na discografia de: IQ

Ano: 2019

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,83 - 3 votos

Avalie

Você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Visitar a página completa de Resistance



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.