Resenha

The Human Equation

Álbum de Ayreon

2004

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

08/03/2020



Uma incrível demonstração de virtuosismo e classe musical

Já tem bastante tempo que eu fico procrastinando em fazer a resenha de um disco do Ayreon e nunca faço, mas isso acabou e finalmente decidi escolher um deles, optei por aquele que é o meu preferido. Afirmo sem pensar que esse álbum é o melhor que Arjen Lucassen já produziu. Tem uma bela mistura de rock, metal, musica espacial e até alguns toques de uma música tradicional escocesa em determinado ponto. Arranjos de cordas, belas nuances musicais e algumas partes que me lembram o som da Royal Hunt, na verdade a miscelânea de bandas que se pode encontrar como influência aqui é grande, pois também há pitadas de Kansas, Dream Theater, Porcupine Tree, Focus e Ars Nova, mas tudo isso sem deixar de ter a sonoridade própria do projeto. 

Para que um álbum deste vire realidade, não basta apenas que Lucassen tenha em sua mente um projeto ambicioso, mas também que toda a gama de músicos talentosos que ele imaginou ao seu lado também enxergue o mesmo proposito que ele, algo que nunca foi um problema, afinal, em todos os discos lançados com a Ayreon até hoje o time de instrumentistas e vocalistas foi de peso. Pra se ter uma ideia, entre músicos e vocalistas, no disco encontram-se nomes como Mike Baker (Shadow Gallery), James Labrie (Dream Theater), Oliver Wakeman, Martin Orford  (IQ), Mikael Åkerfeldt (Opeth) e Ken Hensley (Uriah Heep) além de muitos outros. 

Costumo dizer que apreciar esse álbum é como experimentar uma jornada da vida humana, a música flui naturalmente e as partes vocais são compostas em formas de diálogo, tornando a música muito mais significativa quando a mistura de vocal masculino e feminino é apresentada.

Como não podia deixar de mencionar em se tratando de Ayreon, The Human Equation se trata de um álbum conceitual. O tema é sobre um indivíduo que sofre um acidente de carro e com isso acaba entrando em coma. Sua esposa e seu melhor amigo estão no quarto ao lado, eles tentam descobrir o que ocasionou o acidente, já que ocorreu em plena luz do dia em uma estrada tranquila, sem contar que não houve problema algum no veículo. Mas o que acontece em paralelo a isso que de fato deixa a trama mais interessante, ainda que consiga escutar tudo o que ocorre no quarto, o acidentado também se vê em uma espécie de outra dimensão, afundado em um mundo muito estranho onde suas emoções como raiva, amor, medo, orgulho, agonia e paixão vão se personificando para confrontá-lo com momentos decisivos da sua vida (detalhe que ele nunca se importou com nada disso). Ele começa a entender quais eventos que levaram ao acidente que o deixou naquela condição a partir desses confrontos com a suas memórias e escolhas, incluindo aquele que teria sido o derradeiro para que houvesse esse desfecho, que foi o fato de ter visto seu melhor amigo e sua esposa abraçados enquanto passava de carro. Ele acaba descobrindo que existe uma maneira de sair do coma, e assim se redimindo dos males que fez, que inclui o mau julgamento acerca de sua esposa e amigo. Serão 20 dias (representados nas 20 faixas do álbum) de muita luta pela vida, a cada dia uma batalha interior diferente, culminando finalmente no regresso de um homem modificado e redimido dos males que praticou. 

CD 1:

“Day One: Vigil”, que abre o disco é uma faixa curta, começa com a voz de Arjen Lucassen (fazendo o melhor amigo do acidentado, “best friend”), seguida pela voz feminina de Marcela Bovio (Elfonia) e que faz a esposa do acidentado (wife), falando algo como, "Por que você está tão preocupado? Você realmente se importa ou se sente responsável?” A parte da melodia cantada por Marcela é realmente delicada, memorável e define muito bem o tom geral do álbum. 

“Day Two: Isolation” começa com os inconfundíveis vocais de James Labrie (que interpreta o acidentado e que é chamado apenas de “Me”, ou Eu), bastante suave e acompanhados de uma leve guitarra. Um teclado espacial acentua a introdução da faixa a deixando linda. A música ainda conta com os vocais de Mikael Åkerfeldt (medo),  Eric Clayton (razão), Irene Jansen (paixão), Magnus Ekwall (orgulho) e Heather Findlay (amor). A música tem uma aura otimista, influenciada por um power metal, com riffs simples de guitarra e sons de órgão bem encaixados. O álbum já começa com uma das minhas faixas favoritas. Melodiosa, rica e possui sons de vários instrumentos além dos tradicionais, tais como violino e flauta. Uma música de melodia muito dinâmica. 

“Day Three: Pain” começa através de uma boa guitarra rítmica e a voz de Devon Graves (agonia), além dele, a faixa ainda tem as vozes de Labrie, Devin Townsend (fúria) e Findlay. A música é mais simples que a anterior. Quando cresce instrumentalmente também faz com que os personagens dialoguem de forma mais efusiva. A inclusão de uma flauta em determinado ponto enriqueceu a faixa. Flui muito bem para a próxima música. 

“Day Four: Mystery” tem como introdução um diálogo cantado entre Arjen Lucassen e Marcelo Bovio sobre um ritmo de violão. No interlúdio tem um solo de teclado/órgão e que me lembra bastante o rock progressivo 70’s, bastante agradável. Além dos já mencionados, a música também conta com as vozes de Jansen, LaBrie, Ekwall, Findlay e Graves.

"Day Five: Voices" começa muito bem com violino e flauta na companhia de um ritmo de violão. O que se pode notar já nessa faixa é que no álbum tem muito uso de violão, principalmente nas introduções. Os vocais aqui ficam por conta e Ekwall, LaBrie, Clayton, Findlay, Åkerfeldt. Novamente lindas harmonias e atmosferas criam muito bem o cenário do momento do enredo. 

“Day Six: Childhood” tem seu início através de um bom solo de teclado, violino/violoncelo ao fundo e a ótima voz de Devon Graves. Os vocais da faixa são complementados por LaBrie e Åkerfeldt. Possui um belo trabalho de guitarra, novamente boas incursões de flauta e teclados sinfônicos que a tornam poderosa.

“Day Seven: Hope" é uma música com humor diferente do que vinha sendo apresentado até aqui. Baseado em um órgão com nuances musicais dos anos 70, mas encaixadas em um som moderno. Os vocais de Labrie e Lucassen também ajudam essa música a fluir muito bem. 

“Day Eight: School" é mais uma faixa que começa com violão e voz, primeiramente a de Åkerfeldt,e logo em seguida a de LaBrie. A música então entra em uma explosão com um riff pesado e vocais rasgados, além de um teclado de fundo que dá um ótimo clima sinfônico e assim a música vai variando entre momentos de peso e mais sereno. Destaque também para a orquestração do meio da faixa e que é belíssima. 

“Day Nine: Playground” serve como um descanso para o ouvinte, começa silenciosamente e depois é seguida por sons bastante agradáveis de violino, teclado e guitarra. Uma curta faixa instrumental que é extremamente agradável. 

“Day Ten: Memories”, começa com os mesmo sons iniciais utilizados na faixa um, com algumas pessoas conversando como se estivesse nos corredores do hospital. Possui um ótimo trabalho de violão e teclado. A música se desenvolve sob um dialogo masculino e feminino, cantados por Lucassen e Bovio, além deles, a música também conta com Ekwall, Findlay, Jansen, Clayton.

“Day Eleven: Love” começa com o já tradicional violão, mas logo entram em cena os demais instrumentos deixando-a mais robusta e enérgica. Mas mais do que o trabalho instrumental, o que a música tem de maior destaque são os vocais. Tirando Lucassen e Bovio, todos os vocalistas (que cantaram até aqui no álbum) estão nessa faixa e fazem um trabalho lindo. 

CD 2:

“Day Twelve: Trauma” começa com uma atmosfera em que no meio nota-se um pouco o riff orquestral da faixa anterior (bem baixinho). Com quase dez minutos ela é a maior faixa do álbum. Os vocais ficam por conta de Clayton, Åkerfeldt, Graves, Jansen e Ekwall. Ela se desenvolve em uma combinação de metal e rock progressivo (principalmente pela forma que são feitos os teclados). É bastante rica em termos de composição na sua capacidade de criar nuances musicais. Faixa excelente. 

"Day Thirteen: Sign" inicia-se através de violão e uma flauta delicada e belíssima, o vocal feminino bastante agradável de Heather Findlay completa o momento. O solo de guitarra nessa faixa me lembra a algo que já ouvi em álbum do Mike Oldfield. No geral uma música suave e agradável, que além da voz de Findlay, conta com os vocais de Bovio, LaBrie e Lucassen.

"Day Fourteen: Pride" é uma música que eu poderia dizer tranquilamente que é do Dream Theater, até por conta do vocal do Labrie, mas o uso deslumbrante de flauta faz aparecer uma diferença entre os sons do Dream Theater e esse aqui. Tem um trabalho de guitarra impressionante. Ekwall e Clayton são quem completam o time vocal da música. 

"Day Fifteen: Betrayal" é sem dúvida alguma a música mais sombria do álbum, mas também extremamente maravilhosa em termos de melodia e arranjo. Bastante orquestral, possui inicialmente uma atmosfera de filme de terror e mais para o fim o teclado conduz pra algo na linha de uma ficção científica (ou algo do tipo). Os vocais aqui são feitos por Åkerfeldt, Graves, Clayton, Jansen e LaBrie. 

"Day Sixteen: Loser", tem uma forte associação com a música tradicional escocesa (inclusive me lembra até um pouco ao filme “Coração Valente” e que é o meu filme preferido). Os vocais são maravilhosos, assim como a maneira em que a guitarra é tocada no mesmo ritmo do violino. O solo de órgão também é fascinante. Os vocais começam com Mike Baker (father) e depois tem a companhia de Townsend. 

"Day Seventeen: Accident?" é uma música suave com alguns trechos mais pesados e que traz uma sensação até meio gótica por determinado tempo. Possui um ótimo solo de sintetizadores que são cortesia de Oliver Wakeman, filho do lendário tecladista/pianista Rick Wakeman. Clayton, Bovio, Graves e Jansen fazem as vozes na faixa. 

"Day Eighteen: Realization" inicia-se de maneira silenciosa e depois é seguida por um ritmo otimista de flauta e guitarra elétrica que leva a melodia principal. Isso me faz lembrar um pouco de Focus, mais precisamente a algo do disco Focus 3. É como se fosse o Focus tocando em uma peça de metal. Gosto também do solo de órgão e flauta depois seguido por violino. Apesar dos vocais só entrar no minuto final, ainda conta com nove vozes, Clayton, LaBrie, Jansen, Ekwall, Findlay, Graves, Åkerfeldt, Lucassen e Bovio. 

“Day Nineteen: Disclosure" é uma balada que começa em um violão já instantâneo com a voz de Lucassen. Possui um pequeno interlúdio de cordas muito bom e que é seguido por um solo de órgão e que logo dá lugar a um ótimo solo de guitarra. Além de Lucassen, também dão vozes a faixa, Bovio, Findlay, Jansen, LaBrie. 

"Day Twenty: Confrontation" é onde o disco chega ao fim. Começa com um teclado em que eu me lembro quando ouvi pela primeira vez e achei as nuances de certa forma um pouco parecida com “No Quarter” do Led Zeppelin. Nosso personagem está voltando a realidade, como na letra é dito algumas vezes, “Welcome to reality”. Fortemente influenciada pelo power metal (principalmente em seu núcleo), tem uma atmosfera emocionante e que deixa o final do disco maravilhoso. Além das nove vozes da música, Lucassen, LaBrie, Bovio, Findlay, Graves, Jansen, Clayton, Ekwall, Åkerfeldt, a faixa ainda contou em seu final com a voz de Peter Daltrey e que finaliza o álbum com a frase, “Emotions...I remember”. Vale deixar registrado aqui no final dessa faixa algo que não citei lá na explicação do conceito, após passar por tudo isso durante os 20 dias, descobre-se que tudo que parecia até uma história meio espírita, não passou de uma simulação do programa chamado The Human Equation, do Dream Sequencer (nome inclusive de outro álbum da banda). 

Bom, primeiramente acho que perceberam que em todas as faixas foram citado os vocalistas presentes. Achei que isso seria bom, já que também informei o papel de cada um na história e ao ir ouvindo e for do interesse, entender mais o que se passa e qual personagem está no diálogo em questão, pois as letras são muito importantes no disco e eu só não as abordei, pois tem limite de caracteres pra cada resenha do site. Vale ressaltar também que os nomes são citados nas faixas na ordem com que eles aparecem na música. 

Arje Lucassen ao menos com o Ayreon parecia está sempre estabelecendo limites cada vezes mais altos para si, mas com The Human Equation ele se colocou em um lugar onde nem ele mesmo conseguiu chegar novamente (ao menos até o momento). A técnica e a qualidade da gravação são um exemplo para todo o mundo musical. Com sua habilidade de abordar as pessoas certas e usá-las para a atmosfera musical perfeita, ele mostrou que é capaz de fazer álbuns simplesmente excepcionais. The Human Equation é uma incrível demonstração de virtuosismo e classe musical.


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Sobre o álbum

The Human Equation

Álbum disponível na discografia de: Ayreon

Ano: 2004

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,3 - 5 votos

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