Resenha

Starless And Bible Black

Álbum de King Crimson

1974

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

07/03/2020



Um conjunto de atmosferas incríveis

Não completamente satisfeitos com os resultados que estavam obtendo em seus últimos discos de estúdio, o King Crimson decidiu separar algumas de suas gravações ao vivo, removendo todo e qualquer ruído ou respostas da plateia e usar essas faixas como base de cinco das oito deste álbum. Considero isso uma atitude bastante radical, mas que não deixa de ter a cara dessa banda. Assim como acontece com Island, costumo ver esse registro como algo bastante subestimado por grande parte do público da banda. 

Este álbum é daqueles em que existe uma enorme quantidade de segredos bem “escondidos”, então não apenas o ouça, mas entre nele. Falo isso no sentido de que se trata de um disco em que você tem que prestar atenção e entender ou pelo menos interpretar boa parte de tudo que estará ouvindo, caso contrário, você vai achar tudo apenas muito estranho e mal resolvido. 

“The Great Deceiver” é aquele tipo de música que já começa chutando a porta, abrindo o disco com um arranjo bizarro através de vários tipos de instrumentos, até que tudo diminui apenas para o baixo e Wetton entrega as primeiras partes vocais à música. Instrumentalmente é cheia de nuance e agressividade, enquanto que a letra pode ser bastante divertida se você é imune aos elementos da sociedade, mas também pode ser até mesmo ofensiva para algumas pessoas. 

“Lament” é uma faixa onde há duas partes bastante inteligentes, com uma justaposição de uma “balada” peculiar e um momento de bateria mais feroz, capaz de fazer o ouvinte entrar em um estado de coreia. A primeira parte apresenta uma guitarra densa e um vocal também denso. Há um violino lamentoso e um baixo ocasional. O mellotron também tem grande importância, fornecendo o solo para os demais instrumentos brincarem em cima. Após essa parte, eles levam a música pra uma trilha mais pesada, com direito a uma bateria selvagem, zumbidos de guitarra bem a cara de Fripp, ótimos vocais estridentes e um violino cortante. 

“We'll Let You Know (improv recorded in Glasgow)” é a primeira das peças improvisadas do álbum. Possui uma seção bastante dissonante, uma bateria/percussão um tanto estranha, às vezes parecendo casco de cavalo. Guitarra e violino desfilam alegremente pela faixa  enquanto que as linhas de baixo são pulsantes e marcantes.

“The Night Watch” é a faixa mais bem direcionada do disco (isso não quer dizer que seja a melhor), derivada da pintura de ‎Rembrandt e que leva o mesmo nome. Uma combinação de sonoridade caótica e percussão delicada levam aos primeiros vocais. A seção central da música é onde a perfeição absoluta chega. O vocal meio folk de Wetton combina perfeitamente com a música, bateria e mellotron lidam muito bem com a necessidade da faixa em soar suave. Fripp apresenta alguns lindos solos minimalistas e é um dos destaques. Essa música consegue fazer o ouvinte capturar muito bem a sensação da pintura. 

“Trio”é daquelas músicas que me incomodam na hora que estou fazendo uma resenha, pois ela soa meio que indescritível. Músicos que se encaixa perfeitamente, Wetton fornece uma parte de um baixo acústico e suave e que vai crescendo lentamente, David Cross fornece um violino reconciliatório e Fripp toca algum tipo de teclado com um som de flauta. Um verdadeiro descanso relaxante através de uma música extremamente edificante. 

“The Mincer (improv recorded in Zurich)” é aquela música em que o gosto ao menos comigo foi adquirido. Possui uma atmosfera horrivelmente (essa é a palavra mesmo) obscura, apresenta uma combinação de solos assombrosos de guitarra e violino, vocal harmonioso e denso, além de algumas explosões de bateria. Só é meio estranha pois ela acaba do nada. Eu hoje acho essa música simplesmente soberba, mas como falei a paixão não foi à primeira ouvida. 

“Starless And Bible Black” marca a terceira improvisação do disco, apresenta uma sensação bastante sombria e evocada. Embora eu goste da música inteira, devo admitir que não é uma música fácil. Sem dúvida alguma que o maior destaque aqui é Fripp, que fornece alguns solos que parecem lamentos e por vezes soam até perturbadores. Bill Bruford usa uma boa variedade de percussão, enquanto que John Wetton fornece uma linha de baixo bastante repentina, David Cross completa tudo através de um mellotron com certa dissonância. Essa variedade inteligente e maluca de ideias se transforma gradativamente em uma música maravilhosa. 

“Fracture” é a faixa que finaliza o disco e a minha favorita. Uma peça de semi improvisação simplesmente magistral e que apresenta uma excelente interação entre o quarteto. A guitarra primeiramente nos presenteia com bons riffs e pequenos solos, bateria enérgica e baixo pulsante. Chega um momento onde uma guitarra minimalista e inteligente aplicações de xilofone são quem nos guia nessa jornada musical geológica, acompanhados ainda por um baixo e violino que enriquecem a textura da música. Eventualmente, solos de violino e baixo com uma rica bateria de fundo nos levam aos primeiros tremores dessa viagem. A música então explode, com um baixo estrondoso, gritos de mellotron e bateria insana. Um excelente solo de baixo é ouvido antes que o violino retorne e forneça a cama para a guitarra ecoar. Baixo e violino se envolvem em algo que é quase um duelo, enquanto isso a guitarra contribui com algumas boas adições e a bateria efusiva energiza a faixa. Um conjunto deslumbrante de belíssimos trabalhos de baixo, bateria incrível e uma guitarra impecável de Fripp capaz de deixar o ouvinte simplesmente perplexo. Só por essa faixa o disco já valeria a pena. 

Sem dúvida uma audição essencial para qualquer pessoa interessada em um rock progressivo mais desafiador, digamos assim. Mesmo muitos fãs de King Crimson não consegue digerir bem o que se encontra aqui, algo que eu inclusive entendo, por isso, costumo já deixar avisado que não se trata de um disco fácil. Pode não despertar amor à primeira ouvida para quem não está interessado nas texturas e ideias por trás das peças improvisadas, mas ainda assim é um conjunto de atmosferas incríveis. Excelente.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Starless And Bible Black

Álbum disponível na discografia de: King Crimson

Ano: 1974

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,44 - 8 votos

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