Resenha

Born Again

Álbum de Black Sabbath

1983

CD/LP

Por: Fábio Arthur

Colaborador Especialista

02/03/2020



A missa obscura

Em se tratando de Black Sabbath, o que vem na cabeça dos fãs é sempre algo relacionado ao bom gosto em ótimos riffs e aquelas passagens pesadas com teores entre o Doom Metal e o Heavy Tradicional. Dizem que, após brigas horrendas e exaustivas, durante a mixagem que viria a ser mais adiante o "Live Evil" com Dio nos vocais, a banda se aniquilou em seu próprio percurso. O fato maior é que muitos relatam coisas absurdas e outros tantos têm a sua versão da história, mas obviamente algo ocorreu, pois a banda se separou após a turnê e durante o lançamento do disco ao vivo. 

O Black Sabbath estava agora em frangalhos, devidamente afundado em seu próprio sucesso e Tony Iommi recorreria novamente a Don Arden - pai de Sharon Osbourne - e, naquele momento, Sharon estava mandando Ozzy para alturas com sucesso de vendas e turnês bem sucedidas. Para piorar a situação, Sharon decide que Ozzy deve tocar o repertório de sua ex-banda e assim lançar um registro do mesmo ao vivo. Arden, que ainda era detentor de certa forma de Ozzy, em conjunto com sua filha, acabou por aceitar um long play duplo do cantor e que assim seria o findar do contrato com a gravadora de Don Arden. Mas, o mesmo Don não queria algo do Sabbath com Ozzy e sim os masters dos shows com o já falecido Randy Rhoads, e assim, Sharon acabou por sacanear o próprio pai e entregando o disco "Speak of the Devil", que de certa forma acabou com "Live Evil" nas paradas. 

Outro fator fora que, "Speak of the Devil" não era ao vivo realmente e chegando ao absurdo da faixa "Sabbath Bloody Sabbath" ser retirada de uma passagem de som; disco bem maquiado por sinal. 

Iommi nas mãos de Arden, Sharon elevando Ozzy e o Sabbath morrendo aos poucos sendo enterrado em seu próprio território. Arden queria o nome Black Sabbath na capa, Iommi não, mas enfim, quem vende mais e quem pode mais - logicamente o Black Sabbath - e então lá estava Iommi, Geezer de novo, Bill voltando ao comando das baquetas e agora sóbrio - por pouco tempo -, e para surpresa de tantos outros, Ian Gillan aos vocais. Pois é!

Na verdade, Gillan estava em dívidas, com problemas na voz e sua carreira solo que, apesar de ótima, não emplacava mais. Assim, em um saída de Pub com Iommi e Geezer, ambos resolveram se aliar e fazer o Sabbath renascer de novo; chegar ao ponto de "Heaven and Hell" novamente. 

Mas, Gillan se arrependeu, porém já era tarde. Arden estava de acordo com o empresário do vocalista e o mesmo estava em prantos, pois o Deep Purple estava tentando voltar e queriam Gillan na formação, mas como, com ele enveredado pelo metal do Sabbath e longe de sua virtude musical?

O disco veio marcar o décimo primeiro da carreira do grupo inglês, mas de certa forma o lançamento denominado de "Born Again" acabou por ser injustiçado ao redor do mundo. Iommi jura que o disco vendeu bem, que a tour foi mais ou menos, porém os fãs britânicos e os americanos principalmente, odiaram o álbum. Talvez fosse a produção abafada - culpa de Gillan - que se meteu a mexer com a operação de mesa e queimou os tweeters, e assim a banda registrou sem perceber e o som saiu essa maravilha que todos conhecem, infelizmente. Por outro lado, Japão e Brasil gostaram do disco. Aqui em nosso país o álbum é venerado como supremo e eu me incluo entre os ardorosos fãs do petardo.

Tony Iommi tentou David Coverdale - seu vocalista predileto - mas por ordem de empresários e contratos nada aconteceu, então Gillan era o centro ou a salvação do grupo. Ian Gillan, sempre obteve fama com o Purple, em meados de oitenta se juntar ao Sabbath era algo fascinante perante a mídia, a jogada marqueteira parecia ter vida longa ou própria. Mas Gillan não gostava do Sabbath, não estava em um bom momento e também não achava boa ideia se juntar aos caras e deixar o Purple. No fundo, Gillan é o Purple. 

De certa forma o disco chegou pesado, totalmente embalado ao som de Heavy mesmo. Gillan mostrou uma faceta incrível, se superando dentro do estúdio, mandando bem nas tonalidades, drives e também entre as melodias e interpretações. Mas ao vivo ele jogou o jogo com má vontade e por imposições, cantando às vezes bem e outras não. Não fez os vídeos em estúdio e também se apresentou com playback nas TVs ao redor do mundo. Além disso, ele não decorava as letras das faixas antigas. No mais, Ian Gillan ao vivo executou as fases de Ozzy e Dio, e, nas partes em que ele está no tom, fica tudo muito perfeito; haja gritos e notas altíssimas. 

O mesmo Ian Gillan era problemático, dormia em uma espécie de alojamento fora do casarão em que estavam gravando. Fumava maconha o tempo todo e eram cigarros enormes e grossos segundo Iommi, e ainda por cima, bebia muito, corria pela casa com um lenço amarrado na face e sofreu até mesmo um acidente na pista ao lado da mansão. 

Além de tudo isso, o Sabbath ainda tinha o problema da arte de capa. Resolveram chamar Steve Jouly e o mesmo estava fazendo uma arte para Ozzy. O cara ficou tão puto com a insistência de Iommi, que trouxe uma imagem de um bebê alterada para uma criança diabólica vermelha e com garras entre um fundo roxo excessivo, e assim, o repúdio de Gillan piorou em relação para com o Sabbath. Geezer achou muito forte também, mas Iommi amou e Arden até providenciou uns anões vestidos iguais à capa para figurar no palco. Além de outros artefatos que fugiram de controle. 

Robin Black tentou ajudar a produzir e a bolacha saiu em 1983. Suas faixas são notadamente Heavy Metal, com pouco Hard e muito de obscuro em suas linhas musicais. Se a expectativa acabou após o lançamento, as faixas não mentem e estão aí para serem curtidas; várias delas ou talvez o disco todo. Gillan, que reclamou que não poderia gravar forçando no estúdio, acabou por mostrar ao contrário, pois mandou bem até em demasia.

"Trashed", narrando o acidente de Gillan, é perfeita, forte abrasiva e traz um riff martelado com a bateria de Ward, meio apagada por causa da produção. Uma faixa hino por si só. "Stonehenge", monumento europeu e que serviu de fundo de palco na tour, é uma passagem obscura e densa, horripilante - próprio local tem história nesse sentido. Na sequência, "Distubing the Priest" vem letrando sobre o padre ao fundo da paróquia perto do estúdio, ele reclamava do som vazado das gravações durante a noite, e daí o título com uma letra bem peculiar e sombria, em que Gillan encarna o próprio mal na faixa com gritos e uma voz semeada por ódio. "The Dark" é outro momento entre uma passagem de interlúdio em um tom de horror, obra de Geezer, e que desvenda a próxima música, a maravilhosa e tenebrosa "Zero the Hero"; espetacular e um dos pontos altos. "Digital Bitch" e sua letra inflamada mantém aqueles riffs sujos e brilhantes de Iommi junto da bateria porrada de Ward em que, a esta altura, já estava bebendo outra vez. Antes mesmo do disco chegar nas lojas ele acabou saindo fora na turnê, bem mal de saúde. "Born Again" é um delírio monumental, uma voz de Gillan que tece do doce ao extremo agudo com uma voraz interpretação. "Hot Line", em mais uma letra de Gillan e com teores mais quentes, traz um avanço no hard e culmina em um tom de voz supremo entre gritos e drives perfeitos, beirando a loucura vocalizada nas bases dos riffs perfeitos e seu andamento sólido. "Keep It Warm", letra de Gillan para sua esposa com música de Iommi. Uma faixa firme e forte, que fecha com requinte e uma bela melodia incisiva. Álbum de ponta!

Esse é um disco bem marcado por o eterno som dos anos oitenta, e veio em um momento de desespero e que caiu como bomba para muitos. O Sabbath assistiu mais uma vez seu declínio, em uma fase muito pesada. Gillan, anos depois, disse ter adorado compôr com Tony e Geezer. Iommy retribuiu dizendo que gostava das letras realistas do cantor. 

Enfim, não deu certo e o Sabbath teve que correr atrás de outro grande ídolo no vocal. Mas, isso é outra história.


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Sobre Fábio Arthur

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 04/02/2018

"Obtive meu primeiro contato com o Rock, com o grupo KISS no final de 1983, após essa fase, comecei a me interessar por outros grupos, como Iron Maiden, do qual ganhei meu primeiro vinil o "Killers" e enfim, adquiri o gosto por outras bandas, como Pink Floyd, John Coltrane, AC/DC entre outras."

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Sobre o álbum

Born Again

Álbum disponível na discografia de: Black Sabbath

Ano: 1983

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,06 - 17 votos

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