Resenha

Folklore

Álbum de Big Big Train

2016

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

24/01/2020



Um conjunto verdadeiramente distinto de músicas brilhantes

Começar uma resenha sobre algum álbum da Big Big Train enfatizando que a banda é sem a menor dúvida uma das mais importantes do progressivo contemporâneo, certamente soa até repetitivo, mas ainda assim acho necessário o fazer. Como já é de costume, em Folklore a banda cria músicas ao mesmo tempo épicas, de grande alcance, inteligentes e complexas, mas também frágeis, delicadas, sutis e comoventes. Folklore às vezes soa místico, ardente, emocional, com uma sensação de alteridade, pastoral e bucólico. Há momentos em que a música é profunda e cheia de melancolia nostálgica das coisas perdidas, desejadas, passadas e estimadas, assim como também é ofertada em uma sonoridade de uma banda folclórica comemorando as alegrias da vida cotidiana e das tradições. Resumindo, o que o álbum apresenta é um som carregado com o selo Big Big Train de qualidade. 

O disco abre através da faixa título, “Folklore”, uma faixa bastante acessível, mas também com bastante substância, definindo o tema do álbum (e até mesmo da banda em relação aos discos anteriores), ou seja, narração de histórias literais ou mais abstratas, folclóricas ou não, seja da Inglaterra ou do mundo o qual faz parte. As seções instrumentais são suntuosas e fornecem um contexto ideal para os solos dos guitarristas Dave Gregory e Rikard Sjoblom. Belíssimos também são as linhas de teclado de Danny Manners e as introduções de Rachell Hall no seu sempre sublime violino. 

“London Plane” abre com uma bela melodia vocal sobre um dedilhado simples de violão. A música está cheia de sentimento de nostalgia, algo bastante recorrente em grande parte das músicas da banda. Nota-se uma profunda melancolia e tristeza demonstrada com bastante honestidade. O refrão que parece meramente agradável é na verdade muito comovente. A duração da música permite uma seção intermediária simplesmente deslumbrante e que serve para interromper o ritmo lento do resto da música, usando linhas instrumentas empolgantes com flauta virtuosa, guitarras pesadas e órgãos num estilo barroco. Após um interlúdio maravilhoso a música regressa ao seu ritmo inicial, mas agora tanto instrumental, quanto vocalmente sendo executado de forma mais épica. Uma verdadeira obra de arte.

“Along The Ridgeway” começa muito bem com um ritmo calmo e calor melódico. O vocal de Dave começa delicadamente (assim como os vocais de fundo). A segunda seção, com sua batida staccato, é igualmente envolvente, embora breve, dando lugar a uma nova camada de uma trama de cordas e guitarra elétrica muito bem escolhida, sobre a qual Dave e os vocais de fundo continuam cantando. A seção instrumental brinda o ouvinte com solo de guitarra de doze cordas, um de violino e outro de órgão. Apesar de mais discreta e menos vistosa que as faixas anteriores, mantem o disco em alto nível. 

“Salisbury Giant” é uma espécie de patinho feio, começa dando uma sensação de que deve ser um interlúdio instrumental, mas com a banda completa através de órgão, slide guitar e cordas trazendo uma influência genesiana. A música meio que gira e gira sem nunca estabelecer realmente uma identidade, até que Longdon entra com os vocais nos últimos noventa segundos da faixa. 

“The Transit Of Venus Across The Sun” começa com alguns conjuntos de corneta que depois são acompanhados por violino. Então que pratos em crescente fecham a porta dos instrumentos clássicos e introduz guitarras de 12 cordas, piano, baixo e bateria a fim de apoiar Dave Longdon enquanto ele canta ao longo de uma jornada celestial. A faixa aborda a vastidão do nosso universo externo ou interno, e as linhas sinfônicas realmente brilham majestosamente, incluindo cordas e instrumentos de sopro. O tom rouco de David Longdon faz maravilhas nessa faixa, entregando as letras urgentes e desesperadas com controle aparente e dedicação estelar. Destaque também para um belo solo de guitarra executado amorosamente entre as densas orquestrações e que desliza intensamente como um cometa brilhante através do espaço brilhante do tempo e da matéria. Linda música. 

“Wassail” adota uma abordagem que é fortemente uma reminiscência do prog-folk britânico mais moderno, inclusive lembro que a primeira vez que ouvi esse som foi impossível não fazer certa comparação com o Traffic e sua faixa “John Barleycorn must Die”, principalmente em relação ao refrão e vocal principal. Novamente mais uma música muito bem construída e acabada. 

“Winkie” é uma espécie de evolução da faixa anterior, sendo altamente cinematográfica, eu conseguiria imaginar ela como parte da trilha sonora de muitos filmes que gosto. Com muitas mudanças e reviravoltas, desvios e reversões para manter o conteúdo mais ambicioso do ouvinte, o caleidoscópio de sons apresentados é brilhantemente retratado e evocado com zelo sincero.

“Booklands” com seus quase treze minutos é a peça mais longa do disco. Logo no início mostra uma bateria tipicamente sincopada do mestre Nick D'Virgilo, os vocais apaixonados de Longdon e o som característico da guitarra de Dave Gregory. Se você for um ouvinte sem orientação lírica, com certeza que nessa faixa você perceber a música perdida em você, não sentirá alegria e nem tristeza. A instrumentação violenta no seu núcleo é fenomenal, as intervenções de flauta são perfeitas, D'Virgilio mostra porque é um dos grandes bateristas do rock progressivo de sua geração e Longdon chora maravilhosamente em seu microfone. Tudo contribui para a construção de uma das mais belas músicas de todo o catálogo da banda. 

“Telling The Bees” é a faixa que finaliza o disco e após um impressionante repertório, representa uma espécie de brisa suave, uma balada completamente despretensiosa e que em nenhum momento mostra algum desafio progressivo. Longdon está cantando bem ao estilo Phil Collins, a música possui um solo de slide guitar extremamente delicado e de bom gosto, o coro de fundo e que no final fica mais em primeiro plano é maravilhoso, enfim, o disco termina com uma faixa feita pra exalar lágrimas de felicidade pelo rosto do ouvinte. 

Dito tudo isso sobre suas faixas, como definir, Folklore? Lindo, conciso, atraente, sedutor, são tantas as palavras, a maturidade, a visão e o trabalho em equipe é algo absolutamente abismal. Um conjunto verdadeiramente distinto de músicas brilhantes.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Folklore

Álbum disponível na discografia de: Big Big Train

Ano: 2016

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,6 - 5 votos

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