Resenha

The Quiet Zone / The Pleasure Dome

Álbum de Van Der Graaf Generator

1977

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

09/12/2019



Maneira impressionante de terminar uma série de discos de qualidades ímpares

Nenhum dos álbuns da Van der Graaf Generator é algo fácil de descrever, mesmo sendo uma das minhas bandas preferidas, suas misturas quase sempre pouco convencionais me colocam em uma posição de “incomodo” quando o assunto é fazer uma resenha sobre, mas ainda assim, adoro me arriscar. Uma espécie de punk progressivo e quase pastoral devido aos usos de violino. Vocais desconcertantes vomitando letras peculiares e às vezes brilhantes como costumam serem as escritas e interpretações de Peter Hammill. Realmente devo admitir que não há possibilidade de descrever esse disco de maneira eficaz, não é um disco pra ouvir uma vez e dar opinião, as coisas levam um tempo maior comum todo. Se por um lado The Quiet Zone / The Pleasure Dome pode não ser o álbum mais apaixonante para alguns fãs da banda, por outro, qualquer preconceito que os que não gostam do grupo tenham com ela, provavelmente não deve ser aplicado nesse disco. 

“Lizard Play” é a faixa que dá início ao álbum. Sinceramente quando ouvi isso pela primeira vez eu não senti impacto algum, seja do ponto de vista lírico ou musical, mas com o tempo tudo foi ficando tão melhor a cada audição que hoje não defino como menos que incrível. As primeiras notas nos levam a uma introdução um pouco jazzística, com certa reminiscência de “When She Comes”, do disco anterior, World Record. Então entram os vocais alegres e harmoniosos de Peter Hammill usando uma gama completa de overdubs pra contrabalançar vocais baixos e arrojados. O trabalho de Evans na bateria é fantástico e límpido promovendo inclusões percussivas pouco comuns. As linhas de baixo de Potter conseguem fornecer a espinha dorsal da faixa, bem como uma sensação bestial. Graham Smith inclui na faixa seus violinos caracteristicamente incomuns, além de linhas sutis e elegantes que colocam um pouco de peso na sonoridade acústica. Toda a música acontece em menos de quatro minutos e meio, mas é cheia de estranheza, ritmos xamânicos, uma espécie de não aceitação do que é o rock padrão, além de um capricho que funciona muito bem para uma banda como a Van der Graaf Generator. 

“The Habit Of The Broken Heart” é mais uma música um tanto eclética, passando de um riff acústico do tipo bem básico pra outro mais sutil, depois chegando a um momento mais explosivo. As letras aqui são um pouco menos nítidas do que podemos esperar de Peter Hammill, ainda que mesmo assim contenha algumas ótimas frases e uma mensagem básica, o que ainda assim é mais do que muitas bandas conseguem fazer. Mas tudo bem, a vulnerabilidade lírica da música em relação ao resto do álbum, é mais do que compensada pelo excelente conteúdo musical e pelo clima estranhamente belo no vocal de Hammill. Guy Evans e Nic Potter fornecem um riff singular durante boa quantidade da faixa. Os traços do órgão se encaixam muito bem, assim como uma viola viçosa de fundo. A conclusão da faixa é muito boa. Ainda que não seja uma faixa absolutamente perfeita, possui muito pontos elogiáveis, sendo particularmente, o desempenho de Evans o maior deles.  

“Siren Song” é sem dúvida a faixa que apresenta as melhores letras do álbum e talvez uma das melhores letras da carreira de Peter Hammill. O piano é absolutamente adorável e complementado por um violino trágico, a bateria muito emocional e delicada de Guy Evans e o incomum som do baixo distorcido de Potter criam uma melodia belíssima. Possui algumas mudanças de humor bem distintas, envolvem e apresentam um momento de violino mais animado e inspirado numa linha folk. Potter nunca soou tão estranho como no meio dessa música, mas não quer dizer que não seja fantástico. Faixa maravilhosa. 

“Last Frame” começa com um solo oco da viola de Graham Smith que nos leva a música propriamente dita, juntamente com alguns socos de baixo um tanto sombrios e complexos, além de um leve toque de bateria. Os primeiros vocais são de atmosferas trágicas, juntamente com um conjunto lírico selvagem e sombrio. Hammill fornece uma sonoridade acústica em toda a parte principal da música, o que é uma mudança bastante agradável, e se encaixa perfeitamente nas seções de rítmicas mais altas e nas partes discretas mais introspectivas. Uma espécie de solo de violão ou violino esquisito ocupa uma posição privilegiada na metade instrumental. A conclusão da música é particularmente impressionante, com um riff de baixo distintivo que se mistura com notas de bateria, interpretação lírica elegante e uma guitarra distorcida. Como sempre, Evans mostra-se um baterista sólido, controlando seu som, volume e sensação com muita precisão. 

“The Wave” é sem a menor dúvida a faixa de momento mais introspectivo do disco. A interação exuberante e bastante delicada entre o piano de Hammill, melotron e as cordas são extremamente bem escritas, e os vocais são simplesmente incríveis, soando de uma maneira que só ele consegue fazer. Vocais altos, baixos e sussurrados, harmonias bem selecionadas dando uma espécie de sensação de refluxo à faixa. A seção rítmica é excelente onde novamente Evans mostra todo o seu talento num estilo suave, realizando uma série de cadências sutis em que muitos outros bateristas costumam não parecer seguros na hora de adicionar em suas músicas. 

“Cat's Eye / Yellow Fever (Running)” é uma daquelas faixas que explodem na mente do ouvinte de uma forma frenética e esquizofrenicamente. As letras e os vocais de Hammill têm uma tonalidade maravilhosa, embora não haja muita beleza convencional para contrabalançar isso. O violino e a viola de Graham Smith proporcionam uma emoção verdadeiramente furiosa, provocando um riff pulsante e tenso. Nic Potter nunca soou melhor, com linhas de baixo pulsantes exigentes, tudo é entregue através de um extremo bom gosto. A guitarra também é excelente, fornece bastante personalidade à faixa. No entanto, novamente, Guy Evans merece um comentário especial, sua combinação de sons sólidos e agressivos, sonoridade mais pesada e outros momentos suaves, conseguem preencher a atenção do ouvinte a ponto de lhe causar uma sensação de vertigem. 

“The Sphinx In The Face” é mais uma daquelas singularidades da banda, possui um conjunto lírico anarquicamente organizado, algumas citações bastante inteligentes de músicas anteriores incorporadas à faixa principal (no caso essa aqui). Começa com um riff alegre de guitarra apoiado pelo groove apropriado do baixo. A musicalidade como sempre é incrível, embora o conceito aqui seja meio difícil de entender. No seu último terço, possui uma série de exclamações que inicialmente parecem triviais, mas depois se torna extremamente comovente, embora eu possa imaginar que isso não atingirá ninguém até que realmente se envolva no álbum.

“Chemical World” é mais uma música muito boa. Ela possui doses significativas de caos geral, barulho e letras que alternam entre extravagante e ácido. Hammill surpreende o ouvinte aqui com uma melodia de guitarra espanhola. Os momentos mais suaves são destacados através de um ótimo sax e uma imitação de flauta de Graham Smith feita no seu violino (pelo menos eu acho que é isso que acontece). A seção intermediária barulhenta e distorcida é provavelmente o ponto alto da faixa, com Evans tocando de forma explosiva várias melodias tensas e algumas ideias mais "psicodélicas". 

“The Sphinx Returns” possui pouco mais de um minuto e começa com as mesmas exclamações que finalizam “The Sphinx In The Face” (que seguem por toda a faixa). Sela um pouco de todos os temas do álbum em uma variedade de musicalidade bizarra e que vai desaparecendo para indicar o final do álbum. 

Dentre todos os álbuns 70’s da Van der Graaf Generator, The Quiet Zone / The Pleasure Dome era certamente aquele que eu estava à mais tempo sem escutar. Nessa época a banda já tinha ideias punk e new wave incorporadas em seu arsenal musical, logo, se você é um fã de rock progressivo, mas que dispensa esses temperos, não creio que esse disco seja pra você, agora se isso não for um problema, você pode ter  um ótimo disco da Van Der Graaf Generator nas mãos.  Ótima maneira de terminar uma série impressionante de discos de qualidades ímpares.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

The Quiet Zone / The Pleasure Dome

Álbum disponível na discografia de: Van Der Graaf Generator

Ano: 1977

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,5 - 3 votos

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