Resenha

WHO

Álbum de The Who

2019

CD/LP

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

08/12/2019



O Rock energético e visceral do The Who

Desde o lançamento do melódico ‘Endless Wire”,  o The Who nunca mais entrou em estúdio, apenas se apresentando em turnês pelo mundo tocando seus grandes clássicos. É notório que o relacionamento entre os membros remanescentes Roger Daltrey e Pete Townshend não é dos melhores, tanto que este ultimo chegou a declarar algumas vezes que o The Who jamais voltaria aos estúdios.

Não se sabe o que o fez mudar de ideia, porém o guitarrista avisou em janeiro de 2019 que estavam reunidos compondo canções para gravar um novo álbum. Tal reunião obviamente não foi tão amistosa, uma vez que a dupla gravou suas partes quase completamente separada, entre 	British Grove e o Metropolis Studios em Londres.

Acompanhando Daltrey e Townshend estão os fieis escudeiros, o baterista Zak Starkey (Filho do Beatle Ringo), que consegue incorporar nos shows o espirito do falecido Keith Moon e integra o grupo há mais de 20 anos e o baixista Pino Paladino que vem acompanhado o Who desde a morte de Entwistle em 2002.

Além do quarteto que atua como time principal, há vários outros convidados no álbum, como o guitarrista progressivo Gordon Giltrap, Simon Townshend e o tecladista Benmont Tench.

Um fato importante que deve ser levado em consideração é que o ouvinte não deve comparar o atual The Who com seus discos clássicos: John Entwhistle e Keith Moon, uma das cozinhas mais cavernosas do rock não estão mais entre nós e consequentemente não integram mais o grupo, que obviamente evidencia o trabalho dos lideres com o vocal e a guitarra na frente e a cozinha mais linear. 

Tal fato de certo modo foi benéfico, pois obrigou o guitarrista a explorar sonoridades diversas no seu instrumento, ora utilizando novas maneiras de elaborar os solos, ora utilizando elementos pouco usuais como o flamenco. Daltrey que sempre foi um excelente e enérgico cantor, também demonstra mais controle sobre a voz, conseguindo soar de maneira soturna ou mesmo melódica quando o tema pede;

Outro fato importante é que os líderes se encontram na casa dos 75 anos, ou seja, não possuem mais aquela vitalidade visceral da juventude. Apesar disso, o álbum se inicia com a energética "All This Music Must Fade", cuja letra, segundo Townshend é dedicada a todos os artistas que já foram acusados de plagiar a música de alguém; 

"Ball and Chain" é um blues “sujo” com vocais dramáticos. É uma regravação de uma música solo de Pete Townshend chamada "Guantanamo", que foi lançada em uma coletânea do guitarrista denominada “The Very Best of Pete Townshend”. Chama a atenção a concepção diferenciada que Pete dá pra sua guitarra;

"I Don't Wanna Get Wise" é calcada na voz de Daltrey que canta em cima da guitarra tradicional de Pete como ele adora fazer; "Detour" é um rock sincopado midi tempo, com bom riff de guitarras, coros e a voz de Roger aparecendo encorpada como se estivesse encharcada de Bourbon barato;

"Beads on One String" é mais complexa, com teclados em evidência, onde Daltrey emposta sua voz como nos tempos de “Tommy” e “Quadrophenia”, chegando até a emular Elvis Presley em algumas passagens. Em "Hero Ground Zero" há ecos sinfônicos no teclados e Townshend volta a empunhar seu violão folk para dar um colorido a mais nos timbres;
"Street Song" fala sobre o incêndio na Grenfell Tower que ocorreu em 2017 deixando 12 mortos em Londres. A baladinha 	"I'll Be Back" tem uma gaitinha malandra e uma letra sobre reencarnação. Nada especial;

A faixa seguinte "Break The News”, é a única que não foi composta pela dupla, sendo uma composição do irmão de Pete, o também guitarrista Simon. "Rockin' in Rage" começa tranquila e tem seu momento de ápice, como muitas vezes o grupo fazia com maestria no passado. Não dá pra dizer que não funcionou, mas Keith Moon faz muita falta;

"She Rocked My World" encerra o disco. Uma balada onde Pete utiliza seu violão com algumas influencias de flamenco. Um tema bem diferente do que se espera do grupo, mas ainda assim com muita qualidade;

A capa do álbum foi desenhada pelo artista pop Peter Blake, que já trabalhou com o grupo em “Face Dances”. A produção tem a mão de Pete Townshend, Dave Sardy, Bob Pridden e Dave Eringa, além de Daltrey que produziu apenas seus vocais.

De saldo final, temos um grande álbum, onde a dupla de lideres resolveu abandonar a sonoridade utilizada no ultimo trabalho e investir mais no vigor e simplicidade de rocks energéticos como fazia muito bem no passado. Como disso no inicio, o disco funciona, desde que você não o compare com os grandes clássicos do grupo.


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Sobre o álbum

WHO

Álbum disponível na discografia de: The Who

Ano: 2019

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 3,5 - 4 votos

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