Resenha

Waiting For Miracles

Álbum de The Flower Kings

2019

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Top Notch

25/10/2019



Waiting For Miracles é The Flower Kings soando de forma genuína

The Flower Kings sempre foi uma banda bastante curiosa pra mim, afinal, eu nunca sei quando o clima está bom, se a pausa é apenas um hiato ou se de fato tudo chegou ao fim. Mas real é que apesar dessa minha maneira de enxergar o grupo, no fim ele sempre aparece com alguma novidade, onde a mais recente se trata do disco Waiting For Miracles. Mas verdade seja dita, nos últimos tempos as coisas andarem bem turbulentas e até mesmo declarações polêmicas em aberto aconteceram. 

Deixando fofocas de lado, vamos falar sobre o álbum? Trata-se de um disco duplo, o que não é novidade alguma quando falamos da The Flower Kings. Novamente apesar de longo, a sua versatilidade e ecletismo fazem com que no fim das contas Waiting For Miracles soe palatável do começo ao fim. Apesar de não haver uma experimentação clara no seu som, a banda em alguns momentos vai além da sua zona de conforto.

CD1:

O disco começa através da curta e também bela “House of Card”, não possui nada além de umas lindas notas de piano que preparam o ouvinte para a faixa seguinte.  “Black Flag” já em seus primeiros segundos parece querer ratificar de que Stolt e os demais pretendem manter as maravilhas sonoras que já são características da banda. Em “Black Flag” encontramos progressões de acorde maravilhosa e uma melodia que é uma espécie de clara declaração de que a banda não quer deixar de figurar no posto de uma das maiores bandas de rock progressivo surgida nos últimos 30 anos. Faixa belíssima. 

“Miracles for America” é certamente aquela música que carrega o núcleo do disco. Magnifica, desde os acordes de guitarra até a sua bateria elegante. Em um disco cheio de passagens dignas de elogio, essa faixa ainda assim consegue destacar-se. Curioso que alguns momentos ela tem em seu som algo mais pesado e menos ambiental como de costume. Mas ainda assim, a sua sonoridade e progressão de acorde claramente influenciado por Yes, mostra o que já comentei mais assim, ou seja, o porque da The Flower Kings ser responsável pelo chamado renascimento do progressivo clássico no começo doa anos 90. Mesmo com um grau elevado de influência, um fã de Yes antigo deveria ficar agradecido por ouvir algo assim em pleno ano de 2019. 

Assim que ouvi “Vertigo” pela primeira vez, não teve como não exclamar, “uau, que início mais sensacional!”. O baixo fretless é arrepiante, a bateria vai marcando suavemente e o teclado é uma cortesia luxuosa de Jonas Reingold. Quem lidera os vocais aqui é Hasse Fröberg, que por sinal tem uma voz belíssima e muito melhor que a de Roine Stolt. Todas as harmonias da faixa são doces e serenas. Todos os instrumentos parecem querer soar discretos, porém, quando juntos acabam por produzir uma música excelente e bastante pomposa. 

“The Bridge” começa com algumas notas de piano simples e meio misteriosas. Inclusive devo ressaltar que a progressão de acordes aqui é de uma beleza surreal. De sonoridade etérea e mística pode ser colocada facilmente entre as músicas de melodias mais bonitas que a banda já produziu em toda a sua carreira. Com pouco mais da sua metade a faixa é presenteada com uma guitarra incrível e cortante de Stolt. Um dos grandes destaques do álbum sem a menor dúvida. 

“Ascending to the Stars” meio que destoa um pouco das demais. Isso é ruim? Pelo menos nesse caso nenhum pouco. Em uma sonoridade que parece a de aberturas de filme, apresenta uma progressão de acordes lentos de cordas e um coro maravilhoso que faz parecer ao de filmes épicos. Extremamente experimental, aqui nota-se a banda bebendo da fonte do trio Emerson, Lake & Palmer. Mas novamente o grupo se influencia sem precisar se descaracterizar. 

Se eu mencionei a palavra experimental na resenha da música anterior, “Wicked Old Symphony” passa longe disso, afinal, aqui estamos diante de um pop/rock no seu maior estilo 4/4. Mas convenhamos que a banda sabe muito bem fazer esse tipo de som. Mas a simplicidade da composição esconde seu complexo arranjo vocal. No fim a vejo como uma pausa necessária devido ao bombardeio da faixa anterior. 

“The Rebel Circus” começa com um som meio espacial e ao mesmo tempo escutamos o barulho de algo que parece um animal, seria algo ligado ao elefante na capa do disco? Não sei responder. Mais uma faixa com os dois pés atolado em influência no rock progressivo 70’s. Teclado e guitarra permeiam a música, baixo e bateria fazem uma cozinha lustrosa. Uma peça instrumental que para a turnê desse disco eu a escolheria pra ser a faixa de abertura. 

“Sleep With the Enemy” começa de uma maneira meio soporífica e que muito já foi feito pela banda durante sua carreira. Stolt e Fröberg lideram os vocais alternadamente, onde ambos cantam de forma angustiada. Reingold e DeMaio fazem uma seção rítmica por vezes meio fora do comum, mas ainda assim bem construída. Uma melodia trágica e capaz de mexer com a ansiedade do ouvinte, algo que a banda sempre fez muito bem. 

“The Crowning of Greed” é a faixa derradeira do primeiro CD. Uma peça musical simplesmente esplêndida e que eu inicialmente achei que fosse ser mais um momento instrumental, já que os vocais aparecem apenas no fim. Tem como carro chefe um trabalho de guitarra primoroso que faz emergir no ouvinte sentimentos distintos. Os vocais que chegam mais na parte final também soam muito bem enquanto expressam uma resignação angustiada no estado do planeta.

CD2:

“House of Cards Reprise”, assim como aconteceu com o primeiro disco, abre caminho para a segunda parte do álbum através de uma faixa curta. Ao contrário de “House of Cards”, em “House of Cards Reprise” a sonoridade é mais celestial e parece ter sofrido algumas reformulações. Mas não se tem muito o que falar aqui. “Spirals” é uma composição ambiente com muitos efeitos sonoros e bateria eletrônica (que eu confesso não ser muito fã). A princípio não me parece uma faixa que vou gostar, mas depois se torna mais agradável do que eu esperava, principalmente quando a banda completa entra em cena. Apesar de curta sofre uma grande evolução do começo para o final. 

“Steampunk” é mais uma música de introdução forte. A interação da guitarra com o teclado não é nada menos do que impressionante. Fröberg mais uma vez prova que sua voz está bastante à frente da de Stolt e por isso eu acho que ele deveria ser o vocalista definitivo da banda, canta com muito mais emoção. Ótima faixa. 

“We Were Always Here” é uma música bastante animada, às vezes possui uma levada jazzística, bom uso de marimbas na introdução, um baixo fretless, teclado alegre, excelentes harmonias vocais que a guiam muito bem. Aquele tipo de canção que nos faz imaginar um dia de sol. E se por um lado eu citei “The Rebel Circus” como uma boa faixa de abertura para os shows da turnê desse disco, “We Were Always Here” certamente é a que eu escolheria pra fechar os shows.  “Busking at Brobank” encerra o disco com os seus menos de um minuto. Algumas leves sonoplastias, violão bem arranjado sobre uma sonoridade espacial. 

Waiting For Miracles é daqueles discos que mostram quando uma banda não erra a mão. The Flower Kings sempre foi considerada uma banda pomposa, complexa, majestosa e cativante, aqui não é diferente. Resumidamente, Waiting For Miracles é The Flower Kings soando de forma genuína.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Top Notch

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Waiting For Miracles

Álbum disponível na discografia de: The Flower Kings

Ano: 2019

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,25 - 2 votos

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