Resenha

Animals

Álbum de Pink Floyd

1977

CD/LP

Por: Fábio Arthur

Colaborador Especialista

14/08/2019



Novos caminhos

Eric Arthur Blair foi o responsável pela inspiração do álbum de 1977 do Pink Floyd, na verdade Eric, ficou conhecido pelo seu talento como escritor e jornalista pelo pseudônimo de George Orwell, um dos maiores de seu tempo, na verdade. 
George, após seu falecimento em 1950, deixou obras intactas em um contexto geral, entre elas, o divino 1984 e A Revolução dos Bichos, do qual um Roger Waters complicado, genial, politizado em seu próprio conceito e artista na palavra literal, trouxe à vida por intermédio, um dos maiores ditos feitos do Floyd: “Animals”. 

Parte I

1 – O percurso da banda.

O Floyd vinha de um proveitoso alicerce inconfundível de sonoridades glamorosas entre canções nobres, clássicas, pops (porque não) vide “Wish You Where Here”, expansivas e brilhantes como “Us and Them”, obra intacta de Wright (R.I.P.), exuberantes como “Echoes” e epopeias como “Atom Heart Mother”, mas seguramente, o Floyd de “Animals” vinha calejado, surrado internamente, evolvido pela fama que gerava uma confusão de seus membros, mas dava o tom do sabor de ser um músico reconhecido em uma banda que, após a obra “Dark Side Of The Moon”, eles seriam de igual para com os grandes de outrora, como The Beatles e assistidos com a mesma devoção de fãs do Led Zeppelin. 
Mas as duras penas, a banda seria esmagada pelo seu próprio "Eu" ou por Waters em sua ambição embutida em um sem limite contra a sanidade de um grupo e/ou bem estar geral dos mesmos. Ele – Waters – divagava, galgava momentos de seu ego imenso, sua visão política e suas dependências artísticas e pessoais; isso conflitava dentro do grupo.
Em 1970 sem Syd Barrett e com Gilmour, a banda seguiu uma linhagem pomposa cheia de virtudes musicais e muito acima de seu quesito antecessor, passando em ser uma existência realmente imponente dentro do cenário daquele momento. Mas em frente, com “Meddle”, a banda trouxe um estilo misturado em seu próprio caminho, mas com algo mais acima do já elabora, mais fundo em diversas vertentes e diga-se competente. No entanto, a gravadora deixou o grupo sucumbir e voltar um pouco atrás, de quando eram jovens tentando fazer arte e/ou sucesso nas frentes musicais. Uma pena, realmente!
Entre trilhas de filmes, hoje cultuadas e que naqueles tempos eram vistas com bons olhos por alguma parcela e desdém por tantos outros, o Pink Floyd assumiu para si mesmo a postura de empunhar sua armadura musical de forma conveniente e ao mesmo tempo abrangente, deixando de fazer mais um disco e sim elaborar o “disco” na palavra concreta. Assim, nasceria “Dark Side of the Moon”, todo produzido de forma acertada, com o melhor dos músicos de apoio e dos próprios Floyd. Enfim, vendas, sucesso, dinheiro em excesso, e o ruir de um momento que cresceria até a banda tentar um outro ponto de conexão, mas antes disso, ainda teriam que sufocar sob seu próprio dom musical com o álbum “Whish You Where Here”, datado de 1975, que desde sua concepção trouxe um modelo de algo do velho Floyd – o progressivo – em “Shine Your Crazy Diamonds”, homenagem de certa forma para Syd, passando pela elaboração da canção título que era o alvo do público ao vivo, junto à faixa “Time”, de 1973, e indo em direções ótimas como “Have a Cigar”, em que um Roy Harper inseriu sua interpretação de forma tão brilhante que nem mesmo Roger ou David conseguiriam fazer. 
Esse trajeto de shows, faixas amadas por fãs e muitas outras coisas, deixaram o grupo cabisbaixo e assim com problemas internos crescentes, além de estarem estafados. Ao vivo, o Floyd era aguardado por todos os tipos de fãs, aqueles fãs cegos e que amavam tudo do grupo, os fãs novos, os que só iam aos shows fumar maconha e ouvir “Time” ou “Money e, obviamente, “Wish You Where Here”. Gilmour se lamentava como puderam chegar até aquele ponto, canções eram pedidas aos plenos pulmões nos concertos e o grupo já não agradava tanto quanto tocava algo do período de 1970 para trás; infelizmente. 

2 – Como eram antes de 1973?

A banda almejava ser grande, logicamente o Floyd sempre teve um ímpeto, uma direção e uma ambição além de ser respeitados como músicos e artistas, mas quando estavam entre 71, 72 e chegando em 73, eles simplesmente deixaram abrir suas cabeças e começaram a produzir algo em que estava muito além do apresentado até então no ótimo “Live at Pompeii”, e assim rumaram para um outro nível musical, dotados de uma espiritualidade amparada por elementos da tecnologia vigente e de seu conhecimento pleno, logicamente. De jovens que viajavam de ácido ou se valiam de altos cigarros de maconha, agora eles eram mais incisivos – não que os ilícitos não fizessem parte de parte do dia ou da vida deles – mas a primeira opção agora seria a arte. E ela comandou tudo e de forma que eles mesmos ficariam surpresos. 
Agora depois de passar por todo o processo de desilusão, com tudo e todos, Roger era fortemente impulsionado pelo tema da desigualdade social abrangente e os preceitos políticos de época. Orwell, o autor, também sentira anteriormente o mesmo anseio de decifrar no passado o porque dessa desilusão social, tão forte e tão pavorosa, e Roger Waters via nele ou seja, na obra do mesmo uma abertura significativa para um próximo trabalho. 

3 – A concepção
Como dito previamente, o disco “Animals” foi baseado no livro de Orwell e ele remete claramente não somente ao mesmo e sim nas histórias vividas pelo pai de Waters na guerra, um profundo complemento, dentro de um padrão organizado e voltado para a música em letras e fraseados domados por inspirações divididas entre os anseios dos músicos envolvidos.
O livro nos brinda com a entonação de uma sociedade formatada por bichos, fazendo referência ao homem como um todo. Na obra, os homens são os cães, mas estes mesmos homens são a lei, as ovelhas a população cega envolta de um clima de obediência para com um líder, e por fim os porcos, representados por políticos. 
As letras criticam acirradamente o capitalismo em “Animals”, deixando claro a saliência das oratórias de Waters e suas consciências concebidas de forma fértil e com voracidade. No álbum, fica estampado que as ovelhas tem que se rebelar contra o comando e se sobressair além do estabelecido. 

Parte II

1 – Elementos principais, iniciais.

Em 1975 o Floyd arrendou um edifício na Britannia Row, o mesmo compreendia em três andares, e assim a banda transformou o mesmo em estúdio. 
Após 1 ano, o grupo em final de 1976 começou a conceber “Animals”, e esse seria seu décimo álbum. Mas naquele momento, um Floyd mais fortalecido e indo na direção oposta de seus trabalhos antecessores, seguia desprezando o momento Punk Rock que estava em alta e mesmo seus passos anteriores, eles queriam ser o Floyd de antes, soar natural, majestoso e inspirado.
Gilmour e Mason pouco contribuíram em “Animals”, Waters se gabava de que a canção de “Dogs” era sua e contemplava metade o álbum em questão. 
Muito se brigou durante o processo, muito se elaborou e tentou e mudou ao longo do caminho, e a banda agregou em certo ponto mais um guitarrista, tanto no estúdio como ao vivo, seu nome, Snowy White. Além desse ínterim, os devaneios por direitos autorais, foram acertados meio que aos trancos, chegando mesmo a fazer com que uma faixa como “Pigs on the Wing”, desse a Waters mais royalties de  tanto que o músico se gabava e apelava por tal. A faixa traz referências nítidas da vida privada de Roger. 

2 – A arte

A vista do edifício Battersea Power Station foi a declinada para ser a arte, e assim, após a elaboração de um balão em formato suíno foi concebido, elaboraram a foto temática e trabalhosa, que viria mostrar que a banda além de compor e tocar, iam se envolvendo com a arte no tocante profundo. 
Jeffrey Shaw elaborou o porco voador, e assim, após inúmeros problemas com as tomadas entre tantos outros, na sua finalização, até mesmo o sumiço e rasantes do tal porco nas localidades. Algie seria o nome de batismo do inflável domado por gás hélio e com 9.1mt. O resultado final, apesar ótimo, ficou ofuscado em princípio pelo mal tempo inglês; mesmo assim conceberam algo notável e estimulante. 

Parte III

1 – A luz do dia

Quando lançado, “Animals” figurou na segunda posição no Reino Unido, e assim como bem aceito, o famoso DJ John Peel tocou o lado A do disco na íntegra antes de uma coletiva de imprensa e de apresentação dias antes.
Mas como nem tudo segue a linha do próspero, alguns críticos lançaram sua lascívia sob o Floyd e alegaram que a banda era terrivelmente amarga, por outro lado, chegaram a insinuar dizendo que eles estavam envelhecidos demais para conceber algo bom na linha de “Dark Side”. 
“Animals” vinha em 77 com produção do próprio Floyd, com violões, teclados e acima de tudo uma vocalização nobre entre o não exagero e sim uma plenitude alavancada pelas guitarras sensíveis de Gilmour, entre as ideais de Waters. 
São momentos deliciosos que compreendem o disco ao todo, os alicerces fundamentos em regências firmes, separados em uma ode às suítes, trazem à flor dotada de sensibilidade e mostra o quanto “Pigs”, “Sheep” e “Pigs on the Wing”, em conjunto com a distinção de duração das mesmas, se fazem como em um bloco somente.

2 – Concerto.

A turnê começou em Dortmund, foi para os EUA, voltou para Europa e foi chamada de “In The Flash Tour”. Dick Parry e Snowy White foram os músicos de apoio convidados ao vivo, mas dentro da banda Roger estava em conflito consigo mesmo e com todos os outros. Durante o espetáculo, o porco Algie voava sobre a plateia e nem sempre foi fácil fazer o mesmo mostrar sua graça, isso devido aos fatores climáticos. Nessa fase, a banda não conseguia tocar em locais pequenos ou medianos, agora eram estádios lotados. Em Chicago, o promotor ligou para os agentes do Floyd e alterou a localidade do concerto, pois a banda havia vendido previamente mais de 60.000 ingressos. Roger não entendia muito bem essa dinâmica em que a banda estava indo cada vez mais no profundo da fama, assim mesmo vindo com um disco mais crú do que comercial. As faixas como “Sheep” agradavam os fãs natos e, ainda assim, a banda tinha os hits passados que traziam inúmeros novos fãs, além dos que deliberadamente já acompanhavam o grupo. 
Indo em frente, o final de turnê deixou Gilmour sem ter para onde ir. Ele se sentia realizado e ao mesmo tempo frustrado, ao final de tudo a banda chegaria a tocar para mais de 90 mil pessoas ainda em 1977 e os trajetos deixariam sua marca profunda no âmago do Floyd – pra sempre!

Esse é um dos pontos altos da carreira da banda, sem se ater ao processo de estrelas do rock, rumaram com novas ideias e conseguiram ser musicais, sendo eles mesmos novamente. Uma grande obra!


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Sobre Fábio Arthur

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 04/02/2018

"Obtive meu primeiro contato com o Rock, com o grupo KISS no final de 1983, após essa fase, comecei a me interessar por outros grupos, como Iron Maiden, do qual ganhei meu primeiro vinil o "Killers" e enfim, adquiri o gosto por outras bandas, como Pink Floyd, John Coltrane, AC/DC entre outras."

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Sobre o álbum

Animals

Álbum disponível na discografia de: Pink Floyd

Ano: 1977

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,75 - 18 votos

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