Resenha

Rajaz

Álbum de Camel

1999

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

08/10/2017



Um disco criativo e bastante inspirado.

Após uma década de setenta em quase sua totalidade bastante interessante, o final da mesma e os anos oitenta foi a época de dividir boa parte dos fãs do grupo entre os que aceitavam aquela sonoridade que fugia das suas raízes progressivas e os que não se interessavam tanto mais pelo que a banda vinha fazendo em álbuns como The Single Factor e Stationary Traveller. Mas seguindo o bom e velho ditado em que diz que depois da tempestade a bonança, após um hiato de sete anos, os anos noventa serviram pra banda voltar com suas raízes progressivas que pareciam terem sido senão totalmente esquecidas, mas pouco utilizadas em trabalhos anteriores.

Essa espécie de “regresso as origens” resultou em três ótimos trabalhos na década de 90, sendo Rajaz, na opinião desse que vos escreve, o ápice da criatividade da banda naquele período, podendo ser citado inclusive como o melhor álbum desde a trinca que no geral os fãs escolhem como seus melhores discos, Mirage, The Snow Goose e Moonmadness. Rajaz trata-se de um álbum conceitual em que conceito está no próprio encarte que tem escrito o seguinte: “A música dos poetas conduzia antigamente as caravanas através de grandes desertos. Cantada ao ritmo dos passos dos camelos, despertava cansados viajantes para seu único objetivo...o fim da jornada. Esta poesia é chamada "Rajaz". Ao ritmo do camelo.” Enfim, o tema do álbum é basicamente sobre a solidão do deserto e todos os seus mistérios. Muito interessante também é como a banda conseguiu criar uma sonoridade totalmente condizente com a temática do álbum, transportando o ouvinte pro meio do deserto. Novamente, Andy Latimer mostra extrema capacidade em criar melodias muito belas e inspiradas, além de letras de grande carga emocional.

O início do álbum é através da faixa instrumental “Three Wishes”, com um começo que nos remete a “Shine You Crazy Diamond” do Pink Floyd, só que pouco mais sombrio, ganha uma mudança de andamento se tornando um excelente início de jornada para o álbum. Guitarras e teclados tocados de forma bastante sólidas e com interessantes mudanças de humor. 

“Lost and Found” é uma variação de passagens instrumentais suaves e, outras mais veementes, através de sintetizadores influenciados pela música oriental e linha de baixo extremamente idônea pra ocasião. A guitarra de Andy Latimer também merece destaque, sobretudo na parte final da música, com  bela instrumentação a desacelerar o clima da faixa. Ainda sobre o guitarrista, seus vocais estão bem suave e com timbres baixo, nada de excepcional, mas serve como uma luva pro tema do álbum.

Chegado a “The Final Encore”, novamente a influência da música oriental aparece em grandes doses. Uma faixa que não me soa muito bem, de cadência lenta, faz parecer de fato que o ouvinte está andando em cima de um camelo, as teclas em algumas partes estão com uma sonoridade bastante 80’s e o vocal de Andy está demasiadamente melódico, parecendo um morto vivo. A faixa não chega a ser ruim, mas alguns detalhes poderiam ter sido mais bem trabalhados.

O quarto passo dessa jornada pelo deserto é o da música homônima ao álbum, Rajaz", uma faixa de caráter bastante melódico, onde a carga emotiva da sua execução é bem elevada por conta do vocal e guitarra de Latimer extremamente bem cadenciado e coeso com a temática do álbum. Também conta com belo e relaxante solo de guitarra.

“Shout”, confesso que é a canção do álbum que embora não ache ruim, é a que menos chama minha atenção, extremamente simples, um uso de moog totalmente sem propósito algum, além de que a música foge um pouco das atmosferas apresentada nas outras faixas, o que se tratando de álbum conceitual, é um ponto negativo.

Em “Straight To The Heart”, em alguns momentos, certas passagens de guitarras podem fazer o ouvinte remeter a faixa “Rajaz”, mas a semelhança é mais enganosa do que qualquer outra coisa. Uso de slide guitarra com muita propriedade, teclado, baixo e bateria fazem a cama melódica a qual a guitarra e voz de Latimer deitam bem à vontade construindo um dos momentos mais bonitos do álbum, com direito a um solo final de extrema beleza e bom gosto.

A penúltima música é a excelente “Sahara”. Baseado no que disse mais lá no começo sobre o álbum ser de uma sonoridade bastante condizente com a temática, aqui é um dos momentos onde eles mais fazem isso com clareza. Um trabalho magistral por parte de Andy Latimer, o uso de guitarra jazzy e um solo fascinante, bateria e baixo preenchem seus espaços com ótimas seções rítmicas, além de novamente o excelente uso de teclas. A influência oriental aqui se apresenta de forma perfeita. Ainda que todos tenham feito bem o seu papel, é inegável que novamente o destaque é a guitarra de Andy Latimer. 

O ultimo trajeto dessa viagem pelo deserto é através de “Lawrence”, uma música de solo extremamente belo, mas tirando isso, não tem um atrativo tão grande assim, poderia ser mais curta, parece que a faixa se arrastou demais sem necessidade. Rajaz chega ao fim com uma música mais ou menos, ótimo solo, mas ainda assim, cansativa.

Bom, mesmo que com suas influências diferentes das usadas nos anos 70, em Rajaz a raiz progressiva do grupo está em extrema evidência, mostrando um trabalho criativo, inspirado e uma banda em sua melhor forma no período pós  setentista. 


Nota: As publicações de textos e vídeos no site do 80 Minutos representam exclusivamente a opinião do respectivo autor



Comentários

Faça login para comentar

IMPORTANTE: Comentários agressivos serão removidos. Comente, opine, concorde e/ou discorde educadamente.

Lembre-se que o site do 80 Minutos é um espaço gratuito, aberto e democrático para que o autor possa dar a sua opinião. E você tem total liberdade para fazer o mesmo, desde que seja de maneira respeitosa.



Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

Membro desde: 28/09/2017

"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

Veja mais algumas de suas publicações:

  • Image

    ResenhaLynyrd Skynyrd - Street Survivors (1977)

    11/06/2020

  • Image

    ResenhaDream Theater - Images And Words (1992)

    08/03/2019

  • Image

    ResenhaUriah Heep - Demons and Wizards (1972)

    16/03/2019

  • Image

    ResenhaDream Theater - Metropolis Pt. 2: Scenes from a Memory (1999)

    21/03/2020

  • Image

    ResenhaHiromi Uehara - The Trio Project: Voice (2011)

    18/05/2021

  • Image

    ResenhaThe Pretty Things - S.F. Sorrow (1968)

    20/05/2020

  • Image

    ResenhaPar Lindh Project - Gothic Impressions (1994)

    31/01/2019

  • Image

    ResenhaDavid Bowie - The Rise And Fall Of Ziggy Stardust And The Spiders From Mars (1972)

    06/03/2020

  • Image

    ResenhaPink Floyd - The Piper At The Gates Of Dawn (1967)

    24/03/2019

  • Image

    ResenhaJean-Luc Ponty - Mystical Adventures (1981)

    09/08/2018

Visitar a página completa de Tiago Meneses



Sobre o álbum

Rajaz

Álbum disponível na discografia de: Camel

Ano: 1999

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,38 - 8 votos

Avalie

Você conhece esse álbum? Que tal dar a sua nota?

Faça login para avaliar

Visitar a página completa de Rajaz



Continue Navegando

Através do menu, busque por álbums, livros, séries/filmes, artistas, resenhas, artigos e entrevistas.

Veja as categorias, os nossos parceiros e acesse a área de ajuda para saber mais sobre como se tornar um colaborador voluntário do 80 Minutos.

Busque por conteúdo também na busca avançada.