Resenha

Birds Of Fire

Álbum de Mahavishnu Orchestra

1973

CD/LP

Por: Márcio Chagas

Colaborador Sênior

12/07/2019



John Mclaughlin comanda seu grupo de fusion virtuoso e globalizado

No inicio dos anos 70, John Mclaughlin, então com apenas 28 anos de idade, já havia integrado o grupo do tecladista Graham Bond ao lado de Jack Bruce e Ginger Baker,  gravado com o mega baterista Tony Williams, com o saxofonista  Wayner Shorter, gravado um álbum solo e ao lado de Miles Davis ajudou a criar o estilo denominado fusion, gravando com o trompetista o seminal “Bitches Brew”.

Dotado  de um refinado e único  senso de oportunidade aliado a sua técnica veloz,  o talento musical de John era demasiadamente avançado para a época e o próprio Miles Davis o encorajou a criar seu próprio combo de fusion.

Sua iniciativa de criar um novo grupo aconteceu simultaneamente com seu contato com a filosofia Hindu e os ensinamentos teológicos do guru Sri Chinmoy, que o batizou de  Mahavishnu, deus hindu da justiça e compaixão.

Mclaughlin mergulha de cabeça na religião hinduísta, largando vícios como álcool e tabaco e tornando-se ferrenho vegetariano. Resolve utilizar para seu grupo o mesmo nome com o qual foi rebatizado, criando assim a Mahavishnu Orchestra.

John queria apresentar um fusion diferente do praticado por ele na banda de Miles. Sua vontade era de compor músicas com a temática jazzística, utilizando a riqueza sonora característica do estilo, mas com a dinâmica e o peso do rock ainda mais exacerbados. 

Foi com esse intuito que, para formar o grupo, Mclaughlin reuniu uma gama de músicos vindo de todos os lados do globo terrestre: o norte americano Jerry Goldman (violino), o panamenho Billy Cobhan (bateria), o irlandês Rick Laird (Baixo) e o Tcheco Jan Hammer (teclados e piano). Intencionalmente ou não, esse time, ao lado de John que era inglês, formaram a primeira banda globalizada muito antes deste termo estar em voga na mídia;

O grupo estreou em 1971 com o  álbum “The Inner Mouth Flame”, que embora seja um excelente álbum, carece de maturidade, que só seria alcançada em 1973 com “Birds of Fire”

Produzido pelo próprio grupo, o álbum se inicia com a faixa título com ares orientais, que vai crescendo com a entrada da bateria atrabiliária de Cobhan e a guitarra veloz de Mclaughlin, solando lado a lado com o violino de Goldman. De cara fica nítido que nenhuma banda ou projeto possuía unidade similar a Mahavishnu;

“Miles Beyond” é dedicada ao seu padrinho musical Miles Davis que o incentivou a seguir com seu próprio grupo. O tema é mais arrastado, com o piano elétrico de Hammer duelando com o baixo preciso de Laird. A guitarra surge mais comedida, deixando espaço para bons solos de violino;

A curta “Celestial Terrestrial Commuters” é calcada na bateria de Cobhan, ampara por violino e a guitarra de Mclaughlin soando “suja” em meio a uma forte base. Hammer aparece com um belo solo de teclado. Parece que o tema foi feito para que todos os músicos se sobressaíssem homogeneamente; 

Após um vinheta denominada “Sapphire Bullets Pure Love”, o grupo apresenta “Thousand Island Park”, um tema eminentemente acústico, calcado no piano e violão elétrico. A faixa descansa os ouvidos para a muralha sonora que viria a seguir;

Com menos de um minuto “Hope” é um tema despretensioso, comandando pelo violino de Goldman, que faz um interessante contraponto com a bateria. Aliás Billy Cobhan está tocando como nunca, com suas viradas mirabolantes e um peso só visto nos melhores bateristas de rock. Sua performance mostra impecável em todo o álbum;

Com seus quase dez minutos, “One Word” é a faixa mais longa do álbum, um tema extraordinário com varias nuances e mudanças de andamento. Até o baixista Rick Laird contribui com um solo pungente, demonstrando sua integração com Cobhan, que também apresenta um solo de tirar o fôlego.  Mclaughlin utiliza sua guitarra empunhando o pedal Wha-wha com maestria. Parece que o tema foi criado em meio uma Jam session e funcionou muito bem;

A soturna “Sanctuary” tem forte influência oriental nos arranjos. É outro tema onde o grupo utilizou características  do rock progressivo, deixando tema fluir e ir se desenvolvendo a medida que caminha para o seu final. Uma canção nitidamente mais compassada;

Em “Open Country Joy”, o grupo vai buscar inspiração nas raízes norte americanas, criando um tema mais agradável, sustentado pelo violino de Jerry que chega até mesmo a emular a música country na sua introdução. O tema cresce subitamente com a entrada de Cobhan e Mclaughlin;

“Resolution” encerra este clássico do fusion, apresentando o mesmo clima da faixa titulo que iniciou o álbum, com Mclaughlin solando de maneiras mais passional e com menos velocidade ao lado de Goldman.

Todos que escutam o disco têm um integrante preferido, e apesar de John Mclaughlin ser o líder incontestável do grupo, é inegável que toda a base sonora do álbum se deve a Billy Cobhan, que aliava peso e técnica, dando uma conotação diferente a cada um dos temas criados. 

“Birds Of Fire” foi lançado em janeiro de 1973, consolidando ainda mais o nome do grupo, que conseguia levar sua música a milhares de pessoas realizando centenas de shows, um feito e tanto para um grupo instrumental. 

Nem todo o sucesso impediu que o grupo se debandasse logo após a turnê do álbum acusando John de arbitrário e controlador. Uma pena, pois o grupo tinha potencial para lançar mais clássicos como este.


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Sobre o álbum

Birds Of Fire

Álbum disponível na discografia de: Mahavishnu Orchestra

Ano: 1973

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,75 - 4 votos

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