Resenha

English Electric Part One

Álbum de Big Big Train

2012

CD/LP

Por: Roberto Rillo Bíscaro

Colaborador Especialista

17/06/2019



Um Clássico do Rock Progressivo Contemporâneo - Parte I

A maior parte do tempo, desde sua fundação, em 1990, o Big Big Train (BBT) percorreu trilho independente no prog rock, o que significa que tendia a ser ainda menos conhecido do que as já pouquíssimo divulgadas bandas atreladas às pequenas gravadoras que atendem o subgênero. Sorte que há a fiel comunidade progressiva ao redor do globo – cheia de blogs, newsletters, fanzines – mas quem não assina mailing lists ou visita sites especializados regularmente, corre o risco de não os conhecer.

Em 2012, a banda lançou o primeiro volume de English Electric, cujo núcleo-duro foi gerado pelo Genesis, mais especificamente por Trespass (1970) e Nursery Cryme (1971). Tamanha minúcia mostra como os ingleses dominam bem o subgênero em que atuam e a perícia para operar dentro de escopo bem definido e reduzido de escolhas e mesmo assim não soar caricato ou repetitivo. A abertura, The First Rebreather, põe todas as cartas genesianas à mesa: depois de solo de flauta gabriélico e virada de bateria típica de Collins, entra austero e certeiro solo de guitarra digno de Steve Hackett sentado, lendo partitura. É bem Trespass, mas aí entra o toque de subversão apenas possível para conhecedor profissional da tradição prog: usar maneirismos do baterista e guitarrista empregando sonoridade de um álbum em que ambos ainda não se haviam juntado ao Genesis. Harmonias vocais, muita coisa lembra o Genesis, só falta na na na na na ao final (ouça Upton Heath, que há!). Mas, como English Electric é para quem tem paciência para detalhes de fone de ouvido, o ouvinte também fluente em idioma prog notará arpejos e barulhitos tomados de outros quadrantes.

Quem ama aqueles preciosos anos do início dos 70’s, quando o prog folk gestou pérolas infelizmente quase esquecidas como Amazing Blondel e Gryphon, não deixará de sorrir com a doçura dos banjos de Uncle Jack. Seu tamanho reduzido, lembra banda prog da época tentando fazer single para encravar no Top Ten.

Britânico, adjetivo inseparável de English Electric. Não é à toa esse título. A sonoridade e as letras recheadas de referências a sebes (o álbum termina com Hedgerow...Sebe!), campinas, ravinas, igrejas, sinos, remetem a certa sonoridade imagética típica do prog lá produzido. Peter Gabriel conta que durante as gravações de Selling England By The Pound – em uma propriedade rural no interior da Inglaterra – a banda parava para tomar chá. Como não reconhecer esses estereótipos pelo passeio paisagístico de Winchester From St. Giles’ Hill? É nela que está o melancólico madrigal trançado por flauta árcade e piano gotejante, que precede momento mais rock de guitarra e teclado. Feche os olhos e imagine caminhada colina acima, o atingir o cume e a descida.
 
Outro estratagema comum para o Genesis eram as historietas sobre gente estranha. O BBT tem falsificadores de obras de arte e garotos na escuridão, além do bucolismo pastoril. A vigorosa e viciante Judas Unrepentant encaixa-se nas categorias de historinha e de grande canção prog de todos os tempos.

Em um álbum repleto de tubas, bandolins, pistões, violinos e trombones – além dos teclados da sonoridade do prog clássico – não se corre perigo de cair no marasmo. Em Summoned By Bells, quando parece que a coisa vai ficar repetitiva, o clima muda, meio que prevendo o caminho de algumas canções mais Genesis anos 90 de Folklore, tudo ganha musculatura, o piano adota tons jazzy e David Longdon canta pelas estranhas, o que se repete em A Boy In Darkness. Aqui, o BBT prova vez mais que não é mera cópia neo prog do Genesis; a orquestração épica tem flautas iradas à Jethro Tull, mas os contemporâneos proggers ingleses não são amadores: usam elementos da tradição para criar som deles.

8 faixas de qualidade técnica e artística irretocável.


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Sobre o álbum

English Electric Part One

Álbum disponível na discografia de: Big Big Train

Ano: 2012

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 4,5 - 4 votos

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  • 21
    dez, 2017

    Excelente na estrutura das músicas e nos fluxos de como elas se desenvolvem.

    User Photo Tiago Meneses

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