Resenha

Hiromi's Sonicbloom: Time Control

Álbum de Hiromi Uehara

2007

CD/LP

Por: Tiago Meneses

Colaborador Especialista

28/03/2019



Hiromi's Sonicbloom: Time Control é arte na sua forma mais pura e honesta

A primeira vez que vi Hiromi Uehara foi através de uma simples foto e a primeira coisa que veio em mente é que era mais um desses artistas pop vindo do Japão e que conseguem ser tão irritantes que parecem se esforçar pra chegar ao grau que se encontram. Foi um grande erro querer julgar alguém sem fazer ideia de como era a sua música. Considero facilmente um dos melhores álbuns de jazz-fusion do ainda jovem século XXI. A maneira de tocar de Hiromi é fantástica, e a música tem a energia da fusão dos anos 70 misturada com sons modernos (especialmente pela guitarra freatless de Dave Fiuczynski). 

Devo admitir que quando vi as capas dos seus álbuns eu pensei que era algum tipo de jazz contemporâneo  moderno, que não força os limites do gênero, sendo assim, chegando a um resultado provavelmente tedioso e previsível, logo, estava errado novamente, afinal, era exatamente o oposto disso, ela mantem toda a energia e “balanço” do jazz tradicional, a bateria tem um trabalho que ao mesmo tempo que parece fora de controle também é bem direcionada, as linhas de baixo são riquíssimas em um tom moderno encontrado nos baixos de fusion, porém, claro que é Hiromi que leva as músicas a novos e inéditos níveis. 

“Time Difference” é a música que abre o disco. Uma faixa que começa com um piano solitário de tom clássico, e logo a banda entra e é onde as coisas realmente decolam. O casamento de proezas técnicas e paixão musical é tão perfeito que meras palavras poderiam começar a não fazer justiça. Apenas escute a música você mesmo (a versão ao vivo é ainda melhor). Hiromi faz um ótimo uso das teclas sintetizadas. Tudo que a envolve dá uma sensação de música sobrenatural. 

“Time Out” foi a minha faixa preferida quando conheci esse álbum, mas hoje eu o acho igual demais para eleger minha faixa preferida. Possui bastante groove, linhas jazzísticas maravilhosas e experimentais, ainda mais se comparado a trabalhos anteriores de Hiromi. Novamente o foco é o piano que é executado de maneira bastante limpa. A banda inteira se mostra muito compacta, mas tenho que falar isoladamente de David Fuze que adiciona uma espécie de vibração meio space/funk na guitarra. Mas a liderança é mesmo de Hiromi, sem seus ritmos malucos e habilidades técnica, jamais a música teria sido a mesma coisa. O baterista Martin Valihora também brilha nessa faixa.

“Time Travel” começa com sintetizadores espaciais que é uma boa mudança à medida que criam uma atmosfera ótima junto de umas bem colocadas linhas de baixo, mas logo o piano também aparece, em seguida a bateria dá às cartas enquanto a seção atmosférica chega ao fim. Fica bastante jazzística com um bom trabalho de bateria. Um Teclado pomposo, enérgico e selvagem soa após 4 minutos quando a música se torna mais intensa. Isso é impressionante, especialmente a bateria antes de 6 minutos e meio. Existem mais alguns uníssonos de Hiromi e David, então tudo se acalma novamente a cerca de sete minutos e dezesseis segundos. As ideias musicais introduzidas no breve inicio da faixa são retomadas, realizando o resto da música. Incrível define. 

“Deep Into the Night” é a faixa mais longa do álbum, começa com alguns estilos fantásticos de jazz antes de se lançar no trabalho de piano que considero o mais bonito do álbum. Algumas linhas de pianos são rápidas, algumas mais lentas e reservadas, mas independente disso, todas são de natureza muito melódica e musical. O trabalho nesta música ainda é muito experimental e executado de forma livre, as coisas acontecem um pouco mais relaxantes e contemplativas. Um trabalho melodicamente maravilhoso. 

“Real Clock vs. Body Clock = Jet Lag” apresenta uma melodia onde a originalidade de Hiromi foi expressa o suficiente tanto em relação à parte da complexidade como do humor de sua sonoridade. Possui algumas incríveis mudanças de tempo e todos os instrumentistas se encontram muito bem. Certamente uma faixa divertida e original, ainda que eu admita que não soa memorável como as anteriores. 

“Time and Space” continua o fluxo com a planagem de som com a parte mais suave. Aos poucos vai recebendo um desenvolvimento por toda a parte e com isso progride. Os acordes jazzy são brilhantemente encaixados por cada um dos instrumentos. Eu sei que não mencionei o baixo de Tony Grey ainda. Bem, ele é brilhante também e seu trabalho é muito perceptível nesta faixa em particular e sua influência na faixa é sempre bastante audível. Uma faixa calma e descontraída com algumas adições espaciais. Muito original, ainda que eu ache que falar isso em um álbum como esse seja algo redundante. 

“Time Control, or Controlled by Time” começa com um trabalho de piano que soa como um caos controlado que só pianistas na capacidade de Hiromi conseguem fazer. O restante da banda entra no mesmo clima até que depois a faixa se instala em um modo jazzístico. Passado um pequeno intervalo com bonanças, vai entrando novamente em tempestades, uma bateria voraz toma de conta. Bateria bem equilibrada, linhas de baixo pulsantes, pianos virtuosos e trabalho de guitarra magistral. Que música mais sensacional. 

“Time Flies” começa de maneira relaxante, apenas com pianos e sintetizadores, até que depois de mais de dois minutos, guitarra, baixo e bateria se juntam. Eu gosto como o toque leve e musical de Martin Valihora em seu kit realmente adiciona uma ótima atmosfera à música em geral. Destaque também para as belas melodias de piano que vêm à tona depois de 5 minutos e meio. 

“Time's Up” é uma faixa com menos de cinquenta segundos e finaliza o álbum. Apesar disso consegue ser empolgante e certamente se não acabasse tão precocemente e se desenvolvesse mais, seria mais uma faixa memorável do disco. 

Hiromi's Sonicbloom: Time Control pode não apresentar algo tão fora da caixinha como algumas outras obras desse gênero, mas não é um disco menos inspirado ou visionário. Para mim esta é uma peça essencial. É essencial por mais de um motivo, mas, principalmente, é essencial para demonstrar quão brilhante o futuro da música ainda poder ser, ainda mais se olharmos o álbum com a ótica do ano do seu lançamento. Hiromi mostra que quer apenas seguir em frente e ao mesmo tempo mostrar-se honesta e interessante, afinal, um artista desonesto apenas tenta recriar algo que amava no passado, quanto que um verdadeiro artista tenta pressionar a evolução musical para frente. Se esse indivíduo for bem-sucedido, mesmo que seja um pouco, ele deve ser elogiado e anunciado com a maior frequência possível. E isso Hiromi consegue fazer com louvor.


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Sobre Tiago Meneses

Nível: Colaborador Especialista

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"Sou poeta, contista e apaixonado por música desde os primórdios da minha vida, onde o rock progressivo sempre teve uma cadeira especial."

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Sobre o álbum

Hiromi's Sonicbloom: Time Control

Álbum disponível na discografia de: Hiromi Uehara

Ano: 2007

Tipo: CD/LP

Avaliação geral: 5 - 1 voto

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